Você já parou para pensar sobre a vida afetiva destas mulheres?

A não ser que você faça parte de algum coletivo feminista ou seja profundamente interessada em teorias de gênero e classe, muito provavelmente nunca ouviu falar sobre a afetividade – ou solidão – da mulher negra. Não é teoria. É estatístico: de acordo com o último Censo realizado no país, em 2010, mais da metade das mulheres negras brasileiras não vivem em união, independente do estado civil.

Durante a produção deste texto, conversando com mulheres brancas, e homens brancos e negros, foi fácil perceber a negação da questão, associada com bastante naturalidade a um suposto “gosto pessoal”. Mas é impossível desconectar as escolhas que são feitas no campo afetivo e sexual do ambiente que vivemos; estamos submetidos a símbolos fortes e que atribuem papeis específicos a mulheres e homens, negros e negras.

Historiadores e militantes afirmam que esta realidade deve ser considerada um fenômeno histórico, reflexo do racismo oriundo dos mais de 300 anos de escravidão e dos estereótipos associados à mulher negra no imaginário da sociedade, normalmente relacionados à sexualidade e ao trabalho.

“Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso.” – Bell Hooks, escritora americana.

Ainda que muitos dos temas relacionados às questões de gênero estejam cada vez mais em pauta, existe um silenciamento sobre a afetividade e solidão da mulher negra. A psicóloga Jacqueline Gomes de Jesus conta que isso se dá porque grande parte dos estudos e reflexões sobre a mulher que são considerados referência são elaborados por “mulheres brancas, heterossexuais de classe média, que não vivenciam os dilemas das mulheres negras, cotidianamente tratadas como aquelas que são boas para transar, mas não para casar”.

Todas as mulheres sabem que este raciocínio não está exclusivamente relacionado às negras, mas comprovadamente é mais comum a elas. O mesmo Censo citado anteriormente aponta que as mulheres negras são as que menos se casam e as mais propensas ao “celibato definitivo”. Adriana Barbosa, idealizadora da Feira Preta, um dos maiores eventos sobre cultura negra da América Latina, hoje está separada do pai de sua filha e comenta o que sente na pele. “Percebo que os homens negros e brancos não sabem como se relacionar com as mulheres negras. O branco desperta para a sensualidade e sexualidade, enquanto o negro acha que somos complexas demais”. Kamilah Pimentel, mãe da rapper MC Soffia, também solteira, é categórica. “Ou estamos sozinhas ou em relacionamentos falidos”.

Por que não podemos deixar de falar sobre isso?

São muitos os impactos psicológicos deste preterimento. Eles não se restringem exclusivamente aos relacionamentos amorosos, mas também às amizades e ao ambiente de trabalho, que podem gerar sentimentos que reforçam uma baixa auto-estima que culmina em timidez excessiva, ansiedade, depressão, uso abusivo de álcool e outras drogas, entre outros efeitos.

A tentativa de evitar este cenário acaba tornando muitas destas mulheres, não conscientemente, mais vulneráveis a relacionamentos abusivos – dados da última Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE atestam que as mulheres negras representam 60% das mulheres agredidas por pessoas conhecidas. O Mapa da Violência 2015, realizado pela Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais a pedido da ONU Mulheres, mostrou que a violência contra mulheres negras cresceu mais de 190% entre 2003 e 2013, praticada muitas vezes por pessoas identificadas como parceiros ou ex-parceiros.

Confira abaixo o depoimento de diferentes mulheres negras sobre como vivem a sua afetividade ou como ela as afeta no cotidiano, para além das relações amorosas.

 

Maria Rita Casagrande (Arquivo Pessoal)

“Ao meu redor inúmeras famílias são compostas apenas por mães, ou com mulheres fortíssimas que aos poucos eram varridas pela pobreza, pelo alcoolismo. Parecia o processo natural da vida. A ficha só caiu quando pude me reunir com outras mulheres, já no Blogueiras Negras, e pude ver que estas referências não eram só minhas. Hoje eu tenho uma outra visão sobre quem eu sou, sobre minhas relações. Estar entre outras mulheres negras me permitiu entender mais sobre minha sexualidade, sobre as maneiras como construo minhas relações, sobre aquilo que me conforta, sem expectativas sociais, sem a necessidade de responder tantas coisas para tanta gente” – Maria Rita Casagrande, do Blogueiras Negras e uma das responsáveis pelo I Acampamento de Feminismo Interseccional (o Acampa Intersec)

 

 

Jessica Ipolito (Arquivo Pessoal)

“Só fui me dar conta de muita coisa depois que tive contato com o feminismo e a luta anti-racista. Infelizmente, foi dentro de casa que me senti subjugada por ser mulher e lésbica. O ideal era que eu casasse com homem, aí rejeitei isso e coloquei minha lesbianidade a frente. Só que em seguida, o “ideal” era que eu casasse com uma mulher “RICA”, só que o imaginário é de que essa mulher é branca. Não a mulher negra. Eu me lembro bem de ter apresentado pra minha família minha primeira esposa, e de como isso foi um choque. Ninguém espera que você apareça no almoço de domingo com a sua pretinha de mão dada. No entanto, a partir do momento que entendi tudo que acontecia ao meu redor, pude encontrar com outras mulheres que passaram e passam pelo mesmo que eu, e assim, nos fortalecermos. Todas as amigas que tenho hoje são fundamentais na minha vida, num estado permanente, de empoderamento e resistência pra continuar onde quer que eu vá.” – Jessica Ipólito, que escreve no Gorda e Sapatão e também da organização do Acampa Intersec

 

 

“O mais difícil mesmo foi ter consciência de que sofro bifobia, visto que isso quase não se fala nos movimentos sociais, tanto LGBT como feminista. Não me lembro exatamente da primeira vez, mas quando encontrei o movimento bissexual, já tinha consciência da minha negritude, do racismo que sofro e também da minha condição enquanto mulher, do machismo que sofro. Quando entrei em contato com o movimento bi, relacionei essas três coisas, me sentia e ainda sinto em um “não-lugar” em tudo quanto é espaço, de entretenimento, de militância, de tudo. Porque mulher negra bissexual não é contemplada em lugar nenhum”. – Cacau Rocha, MC, poetisa e cientista social.

 

Jaqueline Gomes de Jesus (Arquivo Pessoal)

“Ser mulher negra e trans (estou incluindo aqui as travestis) gera não uma soma de preconceitos e discriminações intersecionados, mas sim uma multiplicação, que mesmo mulheres trans, sendo brancas, não conseguem compreender, exclusões que só alcançam os corpos e as vidas das mulheres negras e trans no Brasil, as quais, por óbvio demográfico, são a maioria da população trans brasileira. O impacto da interação entre racismo, machismo e transfobia é, literalmente, mortal, e prejudica sistematicamente a vivência afetiva plena das mulheres negras trans, em todos os níveis de afiliação, desde as suas amizades aos seus amores” – Jacqueline Gomes de Jesus, psicóloga.

 

 

 

 

 

Djamila Ribeiro (Crédito Renata Martins) “Desde muito cedo percebi o que significava ser negra. O período escolar foi muito difícil para mim, sofria com piadas em relação ao me cabelo, minha cor. Na festa junina nenhum menino queria dançar comigo e diziam na minha cara sem cerimônia “eu não vou dançar com a neguinha”. Na adolescência fui preterida em bailinhos, festas e ligava a TV ou comprava um revista que só reforçavam esse sentimento de exclusão porque eu nunca via alguém como eu. Foi muito doloroso perceber que eu vivia num mundo onde eu não me via” – Djamila Ribeiro, mestre em Filosofia Política.

 

 

 

 

 

“As minhas principais memórias de vivências de racismo tem sido no ambiente de trabalho. Na Feira Preta, me envolvo em várias etapas do projeto. Certa vez convoquei uma reunião com fornecedores da montagem do evento e me lembro que o dono da empresa de montagem do palco não tinha escuta para o que eu falava. Eu o contratei para montar o palco, eu sabia do que estava falando, mas ele não me ouvia e nem me dava atenção. Quando perguntava alguma coisa direcionava o olhar para um outro fornecedor parceiro de longa data que estava ali, como se ele fosse um interlocutor entre nós. Na hora percebi que pra ele era inadmissível eu saber tão quanto ele e, mais ainda, contratá-lo. Não sei o que era mais forte, eu ser negra, mulher ou jovem. Na época, eu tinha 20 e poucos anos“ – Adriana Barbosa, idealizadora da Feira Preta, o maior evento de cultura negra da América Latina, e do bloco Rolezinho das Crioulas, que terá sua 3ª edição este ano, no carnaval de rua da Vila Madalena.

 

 

Tamires Ribeiro (Arquivo Pessoal)“Quando fui presidente do CA, em muitos espaços que participei, por ser mulher negra, era sempre uma surpresa eu ser a presidente. Acredito que isso se dá por que não é natural uma mulher negra ocupar um espaço de representação como esse. Outra coisa interessante, foi que diante a tanta exposição, eu acabei sentido uma necessidade muito grande de reafirmar a minha negritude, o meu cabelo crespo, e a minha militância e luta, isso me fortaleceu”. – Tamires Sampaio, a primeira mulher negra diretora do Centro Acadêmico da Universidade Presbiteriana Mackenzie

 

 

 

 

 

Kamilah Pimentel

“Desde o momento que Soffia nasceu, me preocupei com a racismo que ela iria sofrer e procurei , junto com minha mãe, empoderá-la, deixá-la forte na discussão racial para que fosse algo menos sofrido. Para ela a questão da afetividade vem com o tempo, mas o caminho é empoderamento. É importante também que as mães de meninos empoderem seus filhos para que, lá na frente, eles queiram ter uma relação afetiva com mulheres negras, indo contra o padrão de um sistema que os educa a oprimir a mulher, especialmente a mulher negra – Kamilah Pimentel, empresária e produtora cultural.

 

 

 

 

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