Podemos não gostar de assumir, mas todos somos humanos. E isso não é só glamour e desprendimento. Isso é sujo, confuso e cheio de choro e ranger de dentes.

Eu tenho uma teoria: a gente vive numa realidade ilusória, sustentada pelo culto do consumo. Conste aqui que não estou falando só de coisas que são naturalmente produtos, não. Nossa busca de otimização da vida é tão grande que acabamos comodificando tudo e todos, incluindo nós mesmos. Comodificar é um verbo que acabei de criar e não sei se existe, mas quer dizer que transformamos uma coisa ou alguém em commodity, ou seja, mercadoria.

Quando eu transformo uma coisa ou pessoa em um commodity eu controlo ela e/ou a situação. Isso, no caso de relacionamentos humanos, quer dizer que a coisa toda fica mais asséptica e menos inexata. E por qual motivo iríamos querer evitar os processos humanos? Porque quando nos transformamos em um produto não temos espaço nem tempo para os pequenos deslizes cotidianos, para a inexatidão dos sentimentos ou para existir, de fato.

Como disse o Sartre:

É um puta trabalho começar a se apaixonar por alguém. Tu precisa de energia, generosidade, cegueira. Tem até um momento, bem no começo, em que tu tem que pular no abismo: se tu pensar sobre isso, simplesmente não faz

E a glamourização das figuras de femme fatale é exatamente isso: uma forma de tratar a mulher como um produto hipersexualizado, mas desprovido das capacidades mais básicas, como sentir afeto e empatia. Então por qual motivo seguimos abraçando essas figuras distantes e bidimensionais como algo legal?

sentindo nadaDe repente, eu não senti nada

Boto fé que isso rola por dois motivos. O primeiro deles é porque as vezes tentamos nos livrar de opressões mimetizando elas. Ou seja, pros caras sempre rolou existir sem derivar absolutamente toda a vida deles da afetividade. Pra gente não. E o segundo creio que seja porque, dentro das construções de feminilidade, ela é a mais empoderada, aparentemente. E digo aparentemente porque as pessoas que conheço e se mantém distantes dos próprios sentimentos costumam ser as mais frágeis. Sentir é pros fortes porque, apesar da aparente fraqueza, sentir demanda aceitar influências alheias e falta de controle. E evitar isso, quando acontece individualmente é só uma merda, mas quando acontece universalmente é uma cultura de merda, que nos nega as tripas.

E saco vazio, nós sabemos, não para em pé.

Me dei conta disso quando, num período terrível da minha vida pensei: pelo menos ninguém sabe que eu estou sofrendo. E isso, eu achava, me dava mais dignidade e me valorizava socialmente como um produto. Maaaaas…

SPOILER: TODO MUNDO ESTÁ SOFRENDO. O TEMPO TODO.

E sendo feliz e trocando afeto e sendo rejeitado. Não importa. A afetividade está sempre lá por um motivo bem simples: somos humanos e é isso que fazemos.

mundo duroÉ um mundo duro

Não somos plástico nem margarina, somos criaturas cheias de complexidade interagindo com outras criaturas igualmente complexas. Todos. Até o Bolsonaro. Além disso, quando tratamos o outro como produto não somos só cruéis com a multiplicidade de existência dele, somos cruéis com nossa própria multiplicidade. Mas mesmo assim, ai meu saco, seguimos acreditando que patético é sentir, não usar esses subterfúgios bestas.

Quando passei por um período de luto notei que ficava angustiada sempre que me dava conta do que realmente estava rolando. Queria controlar, evitar a inexatidão, comprar memórias. Como se comprar fotos, festas, viagens, shows, filmes, fosse anular a morte. Mas nada anula a morte. E isso é terrivelmente doloroso, mas não é essencialmente ruim. A vida é um processo natural. E os sentimentos também.

E assim como é bobo escolher ver a natureza como uma coisa apenas boa, também é bobo acreditar que os sentimentos sejam só positivos. Ou seja, não é só sentir amor que é normal e mesmo sentir amor não é tão previsível e puro quanto gostaríamos.

Sentir, começando ou terminando, fodido ou bonito, também é o que nos valida como criaturas que existem.

life sucksA vida é uma merda, daí melhora, daí vira uma merda de novo.

E, enquanto eu ia notando isso e via como tinha sido bobinha de me isolar e não me permitir sentir em público, escrevi:

Ostentar consumo de dinheiro, gente ou experiências, me desculpem, mas é só mais um jeito de evitar estar plenamente presente em sua própria vida. E quando acaba, parabéns, você desperdiçou sua chance.

Parece que estamos nos treinando progressivamente como sociedade para não aceitar que vergamos. Tudo verga. Não somos alheios. Isso é o que mais nos deprime.

Somos obcecados por femme fatales e malandros e psicopatas, todos querem ser ou conviver com criaturas desprovidas de suas capacidades mais básicas. Sentir, existir, vergar segundo sopra o vento da sua vida, não ser alheio a nada.

Mas eu posso dizer que não sairei dessa ilesa.

Então, quando aceitamos nos hipersexualizar no estereótipo de uma vilã fria e distante o que estamos fazendo, na real, é aceitar calar nossa própria profundidade e multiplicidade, nos transformando em um produto mais facilmente compreensível e consumível. Negando nosso potencial e possibilidade de sentir. E sentir, caras, é foda.

(letra traduzida)

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