Hoje eu vi uma foto minha de costas (há muito tempo isso não acontecia) e, pela primeira vez na minha vida, não odiei o fato de ter que ver a minha bunda (enorme, sempre enorme).

Pela primeira vez não odiei olhar pra minha bunda e fiquei um tempo pensando por quê. Emagreci? Nem tanto. De um ano pra cá, eu até dei uma emagrecida, enxuguei uns 10kg, daí engordei uns deles por conta de todas as mudanças por que andei passando nos últimos meses, daí comecei a me focar de novo e na verdade isso também pouco importa nesta discussão.

O que importa é que concluí que, às vésperas dos 30 anos, que talvez eu finalmente tenha adquirido domínio sobre a minha imagem: sobre a que tenho de mim e sobre a que inevitavelmente passo aos outros.

Aprendi que “gorda” é uma característica minha. Como “branca”. Como “mulher”. Como “morena”. Como “inteligente”. Como “teimosa”. “Gorda” é uma forma de corpos elaborada pela sociedade pra colocar ali quem não é magro. Não é ofensa. Não pode ser usada como tal.

Tudo bem, então, sou gorda. Nem dói. Já doeu pra caralho, mas hoje, tá tudo certo.

A bunda é grande? Aham.

O peito é grande? Aham.

As coxas são grossas? Aham tb.

Tenho bochechas? Sim, enormes.

Tem dias em que me acho medonha? Vários.

Como você. Como a Scarlett Johansen. Como a Isis Valverde.

É isso o que eu sou. Tem gente que gosta. Tem gente que repele, tem gente que vai descobrindo.
Pra quem já estapeou a própria cara em frente ao espelho (e mais de uma vez), é uma paz sem tamanho parar de projetar e de associar o fracasso na relação com sua imagem nos fracassos que te ocorrem na vida. Você não deu certo naquele trabalho não foi porque você é gorda. Você não fechou aquele contrato foda não foi porque você é gorda. Fulano foi escroto com você não foi porque você é gorda. Aquele cara não te quis e/ou não te assumiu não foi porque você é gorda. E que aquele cara que te quis e te amou certamente sequer levou em conta ou problematizou o fato de você não ser magra.

thisishowiroll

A esta altura da vida, é muito bom ver que a gente encara pelo menos isso com um pouco de ponderação: doce de leite é uma delícia, mas correr no parque também. É muito bom sair pra jantar e encher o rabo de pizza, mas também é muito bom quando você termina a série de musculação no dia seguinte. É muito bom encher o rabo de cerveja mas também é muito bom ver que tomar chá verde ou rooibos pode ser bom pra mim. Fico pensando que foi sofrido o rolê pra que eu chegasse até este nível de epifania, que se soubesse disso quando tinha 15 anos tudo teria sido mais fácil, mas a verdade é que só com a maturidade se atinge tanta ponderação. Só com ela a gente elabora sentenças com tudo o que tem potencial de nos ser espinhoso e consegue termina-las com um sonoro “… e tudo bem”.

A bunda é e continua grande e tudo bem.

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