Quando um homem adulto fala sobre “novinhas” como símbolo de status é importante frisar que ele está tratando meninas como objetos, muitas vezes antes mesmo que elas tenham tempo e oportunidade para desenvolver sua sexualidade de forma saudável, entre iguais, como humanas.

Na verdade não existe necessariamente mal em se relacionar com alguém mais velho, mas é importante conseguir notar que, independente das nossas vivências, existe uma “cultura de 9nha” que normatiza a sexualização de meninas.

Essa cultura, que não é nova nem rara, talvez seja melhor percebida na abordagem da edição de Janeiro da Revista Cláudia, que trouxe alguns dos 554 mil casos de meninas entre 10 e 17 anos já casadas (muitas com filhos), mas ela não está só em situações de pobreza e abandono.

O problema é que, com uma roupagem mais descolé, muitas vezes mudamos o olhar e passamos a achar “normal”. Quer ver?

laercio-bbb-2016“Eu gosto de uma novinha. O problema é que para mim só aparecem novinhas mesmo, tipo 17, 18, 20 anos. É natural uma mulher de 21 anos nunca ter beijado um cara de 21 também. Mulher gosta de homem mais velho e homem gosta de mulher mais jovem”

O bróder (Láercio, integrante do atual BBB) de 53 anos ainda assumiu ter duas namoradas: uma de 19 e uma de 17. E foi aí que nosso debate parece que se tornou apenas jurídico. Como se “não é crime” e “ela tem 16 anos mas parece uma mulher” não fossem, em si, argumentos que contradizem a própria noção de “normal”.

Quer dizer, por mais que tenhamos normalizado ver crianças e jovens como objeto sexual, isso não torna a coisa toda menos violenta, como fica claro na #PrimeiroAssédio.

Além disso, ver uma menina como símbolo de status está relacionado com padrões nocivos que, tratando mulheres como objetos, dizem que elas perdem seu valor ao envelhecer, feito escrevi aqui. Como se gastassemos, perdessemos a pureza. Por isso uma mulher mais velha que ousa manter-se mulher, não aceitando o papel de “dama sábia e assexuada” é ridicularizada mas, ao mesmo tempo, um sujeito pode falar que é efebófilo e achar que isso é um sinal de que ele é cool.

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Comentário na postagem de uma foto sensual de uma jovem no Facebook do bróder

Para quem ainda assim acha que estou exagerando, a fala de Laércio trouxe a tona algumas denúncias, como:

Ele já embebedou uma amiga minha de 15 anos, beijou e passou a mão pelo corpo todo dela! Vive dando em cima de menor, distribuindo bebida pras minas e falando que elas parecem mais velhas. Eu tô com raiva de ver ele na TV.

Então mesmo que a gente fosse ficar só no argumento jurídico, isso merece ser debatido, né, gente? E esse comportamento é tão comum que a Polly já falou literalmente sobre a mesma coisa aqui.

E, por isso mesmo, acho que merece ser debatido não como um caso solitário, uma exceção, mas como uma configuração cultural nociva em muitos aspectos. Porque além de adultos sexualizando, objetificando crianças e jovens, ainda tem esse aspecto hierarquico muito forte, já que diferença de idade pressupõe uma hierarquia social. Ou seja, muitos caras que fetichizam garotas, vêem nisso uma espécie de controle, como na expressão “pegar para criar”.

Vou deixar, aqui, pra meditação uma ideia sobre tudo isso: quem “parece” mais “uma mulher”, a menina de 14 ou a mulher de 60? E até que ponto isso tudo é realmente uma questão de liberdade sexual e não de imposição de padrões potencialmente terríveis?

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