Ontem estava lendo esse texto da Mari  e, para além do jornalismo punheteiro que ela ressalta como tema (e vergonha), fiquei pensando (um pensamento recorrente, mais do que eu gostaria) sobre como a régua que define nosso lugar invariavelmente anda de mãos dadas com uma espécie de concurso de beleza.


Todo o resto, quando não ignorado, é posto em segundo plano, numa perspectiva condescendente ou de anulação das mulheres como sujeito.

A performance que interessa nas mulheres, antes de qualquer outra, é sobre quão charmosas, doces, sensuais ou interessantes – enquanto pedaço de carne – somos ao desempenhar tarefas tidas como cotidianas, tipo trabalhar, estudar, viver, sair (vejam vocês que nível de crueldade e desumanização!).

E se a gente parar pra pensar, não é de hoje nem de ontem que a figura do punheteiro rege quem podemos ser. E quando falo punheteiro, não falo daquele que simplesmente curte a punheta, mas daquele que leva a punheta como metáfora, como meta e estilo de vida, como se o mundo existisse meramente para elevar o termômetro de sua libido. E como são essas pessoas que regem o que a gente chama de História.

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Não é horrível quando a gente para e pensa que o mundo todo gira em volta do que querem e esperam os punheteiros?

Toda nossa socialização, como forma de controle e servidão, é baseada em satisfazer os desejos perversos dessa fauna. É o ideal pavoneado de carro, casa, de beleza, dinheiro, poder, é tudo pra punheteiro. Tudo. E se não parece na primeira olhada, talvez seja porque já naturalizamos e incorporamos isso ao contrato social, ao que esperamos que a vida seja.

Tenho pra mim, por vezes, que se todos os homens do mundo fossem menos centrados em suas pirocas, as mulheres hetero estariam mais bem servidas e as lésbicas e bis teriam liberdade de exercer suas sexualidades sem serem reduzidas a fetiche. Se não fosse a ideia de transformar formas de poder e manipulação em extensão do suposto pênis – que precisa ser feito grande no imaginário do outro-, talvez não tivéssemos historicamente sido tão expostas a tantos tipo de perversão, controle e violência.

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O mais engraçado é que quando a gente verbaliza isso, alguns têm a coragem de nos acusar de misândricas, odiadoras de homens etc.

Bem, no fundo, o que eu odeio e rejeito ao máximo é como a figura do punheteiro e sua pavoneação nos roubou a História e nossas histórias, nos roubou nossa subjetividade e nos encaixou no mundo numa posição secundária. Eu não odeio os homens em essência, mas odeio a forma como o jogo deles obrigou a mim e às minhas irmãs uma posição humilhante que, com algumas pouquíssimas ressalvas, nos faz circular de alguma maneira apenas entre “servas” domésticas e/ou sexuais.

Fora disso, o resto todo é resistência.

Se eu pudesse escolher, punheteiro era espécie extinta! O que não quer dizer que prego a extinção dos homens, mas se um cara se dói quando ouve essa afirmação, ele precisa repensar seu estar no mundo porque com certeza ele é mais agente dessa opressão do que pode imaginar. Pensar não faz mal a ninguém. E se ele pensar mais um pouquinho, vai ver como a trajetória do punheteiro, na História, explica chegarmos tão baixo em termos de empatia e respeito ao próximo.

wendy-o-williamsWendy O. Williams sugere: não seja um punheteiro

Quer coisa mais de punheteiro do que conquista de território? “Olha aqui meu pintão em forma de quilômetros quadrados!!!!”  Hoje temos outras tantas performances, mas continua sendo, em essência, sobre a necessidade de se fazer parecer “pintudo“.

Se pensar nisso não me gerasse tanto ressentimento e angústia, eu poderia dizer que eu morro de vergonha dessa gente. Mas antes de simplesmente morrer de vergonha, é um estereótipo que precisa e deve ser combatido. Porque precisamos de uma outra História, de uma outra socialização de mulheres, para que nasçamos e sejamos, sem que precisemos nos tornar um produto, meramente objeto.

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