Desde que Viola Davis fez seu marcante discurso ao ganhar um Emmy como melhor atriz em série dramática no último domingo, dia 20, suas palavras não saíram da minha mente.

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A vitória da atriz não se resume em ser a primeira negra a receber o prêmio na categoria em 67 anos, mas em transformar uma vitória individual numa significativa contribuição ao debate sobre a condição da mulher negra na sociedade.

Tenho a impressão de que há limites quando tentamos travar uma conversa aprofundada sobre o tema. Afinal, o que muitos fazem é apenas reconhecer que somos vítimas e a ponta mais fraca desse cabo de guerra desigual, porém, são incapazes de ir além na desconstrução dos estereótipos acerca da mulher negra. O espaço que muitos desejam que ocupemos é apenas o do sofrimento, e não o do sucesso, como Viola conquistou.

Em seu discurso, a atriz cita Harriet Tubman, também conhecida como Black Moses. Harriet era uma abolicionista que lutou contra a escravidão e racismo nos EUA. Veja a citação:

“Em meus sonhos e visões, eu via uma linha, e do outro lado da linha estavam campos verdes e floridos e lindas e belas mulheres brancas, que estendiam os braços para mim ao longo da linha, mas eu não conseguia alcançá-las”.

Viola finalizou seu discurso com uma análise certeira:

“Deixem-me dizer uma coisa: a única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é a oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”.

Apesar das vitórias alcançadas por mulheres negras fabulosas, como Harriet Tubman, que conquistou a liberdade para si e centenas de escravos, sentimos até hoje que essa linha que nos impede de alcançar as belas mulheres brancas ainda existem. Entretanto, por serem linhas invisíveis parecem ser impossíveis de serem rompidas. Sofremos o impacto dessas diferenças, e raramente conseguimos agir perante a situação porque é algo que vai além do empoderamento individual. Afinal, o racismo é estrutural.

De nada serve a empatia se mulheres negras ainda são remuneradas numa quantia inferior ao que mulheres brancas recebem. Ou então, se as oportunidades em trabalhos são sempre não remuneradas. Percebo que mesmo que nos esforcemos e empoderemos a nós mesmas, sentimos que essa linha sempre estará presente em nossas relações, sejam elas pessoais ou profissionais.

Viola resumiu nossa condição muito bem: precisamos de oportunidades. Quando damos nome ao que nos afeta e angustia sentimos um alívio por entendermos que não é nossa culpa que aquela vaga perfeita numa multi nacional não deu certo. Ou então, que tínhamos razão quando apontamos olhares e práticas racistas no nosso cotidiano. Afinal, ainda que cheguemos a ocupar diversos espaços, o racismo e o machismo são barreiras frequentes em nosso dia a dia. Quantas de nós se sentem inferiorizadas e tratadas de maneira infantilizada e paternalista?  Quando oportunidades são carregadas de opressão, elas não são verdadeiras oportunidades.

Precisamos que o discurso de Viola Davis ecoe pelos campos verdes e floridos urgentemente. A atriz deveria ganhar um Emmy só por isso.

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