Às vezes, admito, esqueço que existem pessoas escrotas no mundo. Tenho sorte de conviver com tanta gente maravilhosa que, essa semana, quando fui alvo de misoginia fiquei quase mais chocada com ainda existirem idiotas que pensam assim do que por ter sofrido uma violência verbal.

Mas existem. Muitos. Sei que nem precisaria citar de provas, o site está cheio estatísticas e casos absurdos, mas hoje o dia começou com mais uma delas. Na Austrália, um sequestro terminou com três mortes e uma revelação: o sequestrador já havia sido acusado de mais de 50 crimes envolvendo violência sexual e comportamento indecente, além da cumplicidade no homicídio da ex mulher.

Como um homem assim está solto? – muita gente perguntou.

Parece, mesmo, que esquecemos ou ignoramos o fato de que vivemos em uma sociedade forjada em ódio, ao menos até que ocorram casos extremos. Ou que preferimos não ver todas essas violências cotidianas, como se não vendo conseguíssemos nos isentar da parte que nos cabe na manutenção dessa cultura. A demonização e a ideia de “colocar essas mulheres no lugar delas” é o que nutre a sociedade misógina como um todo. Ou seja, a ideia que move estrumes humanos a dizerem que “não estuprariam pois tal mulher não merece” e que move idiotas que o fazem é a mesma.

demonização 2

E esse pensamento está longe de ser novidade. Há muitos e muitos e muitos anos, mesmo, habitamos um mundo onde a mulher tem sido, em grande parte, demonizada ou mantida/tornada invisível, tanto em suas forças quanto nas violências que sofre.

Lembro até hoje a primeira vez que li uma problematização sobre narrador e protagonismo na história, num livro da Linda Hutcheon. Ela não estava falando exatamente de feminismo, mas de todas as minorias mantidas fora da narrativa histórica exatamente em virtude da escolha do protagonista. Foi a primeira vez que me dei conta que existe uma construção narrativa na história, ou seja, não é que só tenham existido meia dúzia de mulheres foda ao longo da história e que todas as demais fossem mulheres demoníacas. É que quase sempre fomos apagadas e caladas por um narrativa feita por homens e para homens.

E não é só na história que a existência das mulheres passa pelo filtro masculino. Segundo a Deanna Petherbridge, curadora da primeira exposição a reunir representações de bruxas e bruxaria, o papel da mulher nas artes passa por representar e punir as falhas e pecados delas (e por alertar o mundo dessas maldades).

A monstruosa bruxa velha que está em contato com forças malignas (como a bruxa bíblica de Endor) e a bela encantadora que transforma os homens em bestas (como a clássica Circe) tem sido reinventadas de muitas maneiras através dos séculos na arte, literatura, teatro e música.

Ou, como disse Charlotte Bronte em 1849 (!!), no seu segundo romance, Shirley:

Se os homens pudessem nos ver por quem realmente somos, eles ficariam encantados; mas mesmo o cara de inteligência mais aguda frequentemente vive iludido sobre as mulheres (…) para eles uma mulher boa é uma coisa estranha, metade boneca, metade anjo; e uma mulher má é quase sempre um demônio

bruxa

Ocorre que é só quando nos damos conta disso que podemos nos unir para mudar as coisas e difundir pensamento crítico sobre o que é a misoginia. E quando nos unimos para fazer isso temos aquela teimosia (ou resiliência) que só os que sabem que estão certos conseguem ter.

Por isso não vai ser tiozinho nem adolescente raivoso que vão nos calar. Nós só ficamos mais fortes *e maravilhosas*. E aqui roubo a citação do Mia Couto favorita da Cintcha:

Não há outro caminho que não seja a insubordinação. Não digo insubordinação como se ela, por si mesmo, trouxesse as respostas automaticamente. Mas tem que haver uma insubordinação, primeiro, em termos do espírito, em termos daquilo que nós temos que não aceitar deste mundo e da explicação que se dá do mundo

E, nesse caso, existir sem se deixar calar ou amedrontar já é insubordinação. E das boas!

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