Durante boa parte da vida lidei com a ideia de que minha grande redenção só viria pelo perdão. Porque é preciso perdoar estupradores, agressores, manipuladores, torturadores, mentirosos, assediadores, traidores. Todos os defeitos dos homens, toda a violência misógina. A única forma de viver com isso é perdoando. Perdoando e superando. Mas será?

 

Quero dizer, sei que para algumas mulheres é assim que funciona, mas não pra mim. Eu nunca me senti mais forte tentando pensar de maneira elevada em misóginos vaidosos. Mas eu me sentia mais forte pelo ódio que eles despertavam, o ódio me fazia pensar que eu seria capaz de superar qualquer coisa enquanto eles definhariam em um mundo onde não caberiam mais. O ódio me fazia acreditar que esse mundo estava chegando e me fazia lutar por ele. Eu lembrava de Drummond e repetia: “meu ódio é o melhor de mim”. E então eu sentia culpa. Que tipo de pessoa pequena eu era para me nutrir e fortalecer em ódio? Sentimentos não evoluídos como esse jamais me levariam à lugar algum. Eu precisava perdoar. Perdoar e superar.

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Por isso a primeira vez que eu li esse texto, admito, minha alma se tornou mais leve.

Eu ouvi muito sobre perdão. Perdoe ele. Perdo ele. Perdoe ele. Eu me recuso. Eu ainda me recuso. Eu não o perdoarei. Perdão não é o último passo em processar meu trauma. Eu tocarei minha música favorita no dia que ele morrer e cantarei para as nuvens. Os pássaros me ouvirão e alguns sentirão medo, mas outros saberão. Eles levarão a mensagem em suas asas: outro homem mau se foi.

Pela primeira vez entendi que não era a única. Que muitas de vocês também devem ler histórias de superação nesses contos de “vingança” porque a demanda por perdoar perdoar perdoar é, tantas vezes, cruel e inumana. E mais, essa demanda também é uma reafirmação da feminilidade, que enfraquece e fragiliza mulheres para nos manter em nosso lugar, o de cuidar e aceitar homens, sempre perdoando e superando suas culpas.

Então eu ouvi minha música favorita e disse pra mim mesma: “não é todo mundo que merece ser perdoado, está tudo bem”.

Só que hoje eu acordei para essa imagem:

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Ainda que eu tenha meus questionamentos sobre perdoar homens abusivos, isso é a intimidade da Luiza Brunet (e eu não estou aqui para expor mulheres). Mas daí a transformar essa ideia errada de perdão em um método de cura tem um caminho longo.

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No texto que segue essa manchete o que se dá a entender é que a própria vítima é responsável por seus traumas e sofrimentos decorrentes e que isso está diretamente relacionado com não saber perdoar, não com a violência em si. Como se “ressentimento” ou “mágoa” fossem palavras acertadas para lidar com a gama de sentimentos que ficam após uma agressão ou um abuso sexual. E como se a ideia de que só as vítimas tem obrigação de ser elevadas fosse algo digno, em qualquer sentido.

A gente sequer nota o quanto este tipo de cobrança reforça estigmas sobre violência misógina, sabe?

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E, veja bem, esta não é uma cobrança isolada. Muitas mulheres já passaram por isso, entre elas a Joanna Maranhão:

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A ideia de que abuso infantil merece perdão e, pior, de que perdoar um pedófilo é a única etapa final possível na maneira como alguém lida com essa violência é, também, uma forma de dizer que ela “não é tão violenta assim”. E de cobrar a vítima. Acredito que sequer tenha sido de caso pensado, a reporter estava apenas trabalhando com esse senso comum de que após sofrer uma violência, se não somos capazes de perdoar é porque não aprendemos a lidar com a situação e “vivemos no passado”. Mas existem outras formas de lidar com violência e seguir com a sua vida, ninguém deveria ser obrigada a ignorar a percepção de culpa sobre alguém que é realmente culpado para ser vista como saudável psiquicamente.

E mais, toda essa cultura de perdão vem apoiada no conceito de “superar”, só algumas coisas deixam traços. Assim como eu sempre vou sentir algum tipo de amor por alguém com quem me relacionei e amei muito, também tenho experiências ruins que deixaram lembranças. A vida é formada por experiências e garanto que todas as mulheres do mundo preferiam não ter nenhuma vivência violenta e só manter traços agradáveis do passado, apenas não é o caso. E não é o caso porque vivemos em uma sociedade misógina, não porque escolhemos assim. Daí que esse papo de perdoar e superar, além de ser uma forma de culpabilizar a vítima, ainda é um jeito bastante cruel de nos simplificar.

Como disse essa colega:

Pseudo-espiritualidade fez do perdão um marcador de virtude pessoal. Se tu perdoa, então é iluminado (…) Essa atitude ignora que a escolha por não perdoar pode vir de um lugar de força e pode representar uma resposta legítima para as ações e o lugar de um agressor na sociedade (…) O verdadeiro perdão é uma realização, mas negar a validade de outros caminhos de cura minimiza a verdade e apaga outras formas igualmente autênticas de seguir adiante.

No meu caso, eu não perdôo um perseguidor que tive porque toda vez que sofro crises de ansiedade temendo ser, novamente, atacada, lembro dessa violência. E entendo ele como uma pessoa doente, com muitas questões, mas não acho que isso ou qualquer coisa faça com que mereça meu perdão. Isso não quer dizer que eu viva no passado, seja pior ou estragada (apesar de, às vezes, me sentir assim). Quer dizer que meu trajeto de vida inclui essa situação. Uma situação de bosta, sem dúvida nenhuma, mas que constitui a minha história. E toda vez que alguém me diz que devo superar e perdoar o que eu ouço é uma pessoa me dizendo que eu devo apagar uma parte do meu trajeto de vida, só que isso não rola e está longe de ser algo saudável.

Mas toda vez que alguém me diz que devo superar e perdoar também sei que só eu sofro essa cobrança, que quem praticou a violência, como é comum, saiu ileso do que impôs. Sem traumas e sem cobranças por perdão e superação. E eu não posso concordar com isso.

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