Nos seis anos que tomei Cerazette, sempre que alguém falava mal da pílula eu sentia como se estivessem falando mal de uma pessoa querida.  Na minha cabeça, ter parado de menstruar por causa do anticoncepcional era a melhor coisa que já tinha acontecido na minha vida. Trombose? AVC? Câncer de mama? Bobagens perto da alegria de não menstruar.

Menstruar sempre foi uma tortura pra mim porque além de cólicas horríveis eu também fazia muita merda durante a TPM. Arrisco dizer que todas as grandes merdas que fiz na vida foram no período pré-menstrual. Uma vez li uma entrevista da Patrícia de Sabrit dizendo que terminou seu casamento com Fábio Jr. após três meses porque estava de TPM e pensei apenas “te entendo, amiga”. É bem o tipo de coisa que eu faria também. Numa TPM normal, você chora e come chocolate. Na minha TPM eu fazia a mala no meio da noite e me mudava pro nordeste com o dinheiro do aluguel dos meus roommates. Não era maneiro.

Um belo dia eu decidi que bastava, não queria mais esse negócio antiquado de menstruar pra minha vida. Comecei a tomar Cerazette e nunca mais parei. Meu corpo se adaptou completamente, dava uma menstruadinha de seis em seis meses, mas era uma bobagem. Às vezes sangrava tão pouco que nem de absorvente eu precisava.

De vez em quando tentavam me alertar para os perigos da pílula, Mari inclusive fez post sobre isso, mas eu nem tchuns. Que trombose o quê, todo mundo estava era com inveja da minha maravilhosa vida livre de tpm e absorventes.

Aí o Facebook começou com essa história de memórias. Todo dia ele apitava com uma lembrança diferente e comecei a notar que, de uns anos pra cá, eu havia me tornado uma pessoa extremamente deprimida e com ansiedade social. Alguma coisa estava bem errada comigo e decidi me auto-stalkear para tentar encontrar a causa. Reli todos meus posts no Facebook. E no Twitter. E e-mails antigos. Reli também meu livro. Investiguei minha vida toda, fiz as contas na cabeça e concluí o que há muito tempo deveria ter sido óbvio: era a pílula.

Desde que comecei a tomar Cerazette, fui gradualmente deixando a depressão  e ansiedade tomarem conta da minha vida. Mas tomei por tanto tempo, que comecei achar que esse era o meu normal e sempre achava alguma razão para minha mudança de comportamento.

Não consigo mais pegar o telefone e fazer um telefonema sem ter uma crise de ansiedade? É só preguiça de gente.

Preguiça de gente? É porque comecei a trabalhar em casa e não saio mais na rua.

Não saio mais na rua? Tá frio.

Sempre tinha algum motivo pra explicar por que, há meia década, eu estava me sentindo um lixo.

Em Novembro, resolvi parar só para testar se era isso mesmo. Se em três meses eu não notasse nenhuma mudança significativa, não era a pílula o problema e eu poderia voltar para os braços da minha cartela me esperando no fundo da gaveta cheia de saudade.

Mas era a pílula, gente. Era muito. Três meses sem Cerazette e eu sou uma pessoa completamente diferente. A vida não ficou magicamente boa, tudo segue uma bosta, não tenho emprego nem dinheiro e moro de favor, mas aquela nuvem pesada que me impedia de sair da cama sumiu. Não tenho mais aquela angústia dentro de mim 24 horas por dia. Eu durmo bem. Eu consigo atender o telefone sem ter uma crise de ansiedade. Eu não passo o dia pensando em me matar.

Tá tudo bem*.

Não vou virar militante anti-pilula e tentar te convencer a parar com a sua também. Mas ó, se você tá se sentindo estranha, recomendo ler por aí sobre os efeitos colaterais e dar uma pausa pra ver se as coisas melhoram. Pra mim melhoraram muito e pode ser que melhorem pra você também.

(*Exceto pela minha pele, que tá um lixo)

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