Hoje as coisas começaram dando errado. Não dormi direito, não consegui acordar minha filha pra escola e minhas dívidas me ligaram logo nas primeiras horas do dia, me obrigando a silenciar o telefone e trazendo aquelas tão conhecidas pontadas de angústia na boca do estômago.

como?!

Como é que eu vou fazer pra viver?

Ontem a Ana saiu daqui deixando péssimas notícias. Toda fiação deve ser trocada, não tem como mudar o chuveiro, a tomada explodiu, um dia a casa cai. Minha nova casinha já tão surrada pelo tempo e pelos outros que moraram aqui antes. Preciso falar com a imobiliária, o proprietário, preciso pagar o aluguel atrasado primeiro. Preciso pagar o aluguel atrasado.

Como é que eu vou fazer pra viver?

Ontem corri muito, andei horas debaixo de um sol esquisito, frio e quente, pra resolver as burocracias da vida. Comprei um chuveiro novo que não pode ser instalado na minha casa. Tive que tomar um banho frio antes de dormir pois o antigo se recusava a funcionar e eu estava suada demais. Suada do dia, das caminhadas, das péssimas notícias, do mal estar político que desceu feito sombra no meu país no fim do dia de ontem. Suja. Precisava de um banho.

Está tudo errado. Tudo.

Meu nome na capa de uma revista, minha cara no programa dominical, minhas palavras ecoando, reverberando, muitos convites para escrever em veículos de grande circulação. Convites como em “não temos verba para convidados”. Não querem pagar texto, não querem que eu cobre oficina, não temos esse fee, fi. Nunca fui tão lida. Nunca ganhei tão pouco. Que profissão ingrata essa minha. Que dias, quanta angústia, quanta coisa revolvendo dentro de mim, saindo lá do fundo pra me atormentar.

Pelo menos consegui fazer o chuveiro funcionar. Não sei como vou fazer pra viver, mas hoje o banho vai ser quente.

* Publicada no meu perfil no Medium. Sigam lá! E a ilustra é da maravilhosa Eva Uviedo