G0y, highsexual, bro job e boner test são todas expressões surgidas nos últimos meses para falar de práticas sexuais entre dois homens que não se consideram gays. A princípio isso pode causar estranhamento (e risos diante de nomes tão bobinhos), mas a ideia está longe de ser nova.

Nos anos 40 o maravilhoso Doutor Alfred Kinsey criou uma escala, conhecida como Escala Kinsey, para definir o comportamento sexual das pessoas ao longo da vida. A escala serviu de base (e se modificou ao longo dos anos) para um dos maiores estudos sobre sexualidade humana já realizados.

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A grande descoberta da pesquisa coordenada pelo Kinsey foi que a maioria da população estava entre o nível 1 e o nível 5 da escala, ou seja, com uma preferência sexual predominante, mas não “restrita”. Isso quer dizer que, ainda que consideremos ser hetero o padrão sexual, o espectro bi estava estatísticamente mais presente.

Obviamente que as descobertas, publicadas nos livros Sexual Behavior in the Human Male (1948) e Sexual Behavior in the Human Female (1953), chocaram muito a sociedade conservadora da época, o que acabou destruindo a carreira e a vida pessoal do Kinsey (tem um filme de 2004 sobre ele, pra quem se interessou).

A galera que fez a pesquisa

E esse isolamento do Kinsey serve como um indicativo de que a maneira como lidamos com a nossa sexualidade aos olhos do outro está diretamente relacionada com as possibilidades geradas pelo momento e pela construção social que nos rodeia. Quando, como no caso dele, não é possível sequer questionar a heteronormatividade, a sexualidade humana é levada para a clandestinidade.

Ou seja, a informação pode ser libertadora mas não é contagiosa. Ninguém vai sair pegando pessoas do mesmo sexo, se não quiser, apenas porque o mundo tem menos ódio. Da mesma forma, a ideia de que o material chamado “Escola Sem Homofobia” (e apelidado toscamente de “kit gay”) transformaria alguém em gay é, obviamente, só muito babaca. Mas, sim, poderia criar abertura para que mais pessoas vivessem sua sexualidade diboinha.

Claro que só isso não basta. Especialmente para nós, mulheres, que não somos contempladas com o branding do tesão (note que g0y, highsexual, bro job e boner test são todos sobre homens). E não somos porque existe uma falsa ideia de que temos mais liberdade para experimentar quando, na realidade, nossa sexualidade é tida como um tipo de entretenimento, algo que está à serviço dos homens. O que é especialmente duro para mulheres bi, como diz a Jamile Nunes nesse texto foda da Jarid.

Como mulher, a sociedade constantemente põe dificuldades em nossas sexualidades. Mas especificamente com bissexuais, somos ainda mais objetificadas e vistas como isca para aventuras sexuais por homens héteros. Além disso, existem mais desculpas para invalidar minha sexualidade, como o fato de que supostamente me declaro bissexual só para ‘chamar a atenção’ de outros caras, ou porque está ‘na moda’ ou é ‘moderno

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Mas nem tudo está perdido. Uma pesquisa feita com habitantes do Reino Unido e recém lançada pelo YouGov mostra que, talvez, a pesquisa do Kinsey estivesse no rumo certo. Baseada na Escala ali de cima, ela traz números difíceis de imaginar em lugares onde a informação é controlada, como na Rússia, onde é proibida a “distribuição de informação direcionada para criar relações sexuais não tradicionais”.

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*verde para completamente hetero ou gay *roxo para vários graus de bi

No gráfico é possível notar que, entre os mais jovens existe um quase equilíbrio entre quem se identifica como puramente hetero ou gay e quem se identifica como no espectro bi. Quanto maior a idade das pessoas, mais aumenta essa diferença. Ou seja, tanto lugares quanto momentos com mais acesso à informação possibilitam desenvolvimentos sexuais mais saudáveis, como o próprio YouGov esclarece:

Claro que essas figuras não medem bissexualidade ativa – no todo, 89% da população se define como hetero – mas te colocar no nível 1 da escala permite a possibilidade de experiências e sentimentos com pessoas do mesmo sexo. Mais que tudo, isso indica o aumento de uma abordagem mais mente aberta em relação a sexualidade.

E ser mais mente aberta está diretamente relacionado com a maneira como lidamos socialmente com a sexualidade (a nossa e a do outro). Com não condenar nem julgar comportamentos saudáveis baseados, somente, na nossa própria ignorância.

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