Ia começar esse texto com “perdemos” mas a verdade é que, no que diz respeito à Elke, eu só ganhei. A Elke Maravilha mudou a minha vida (e eu nunca sequer a conheci pessoalmente).

Tudo começou mais ou menos assim: quando eu era adolescente um cara comentou que a Elke era linda quando mais jovem, fiquei curiosa e fui procurar. Daí dei de cara com essa imagem clássica que imagino que todos conheçam.

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A sensação que tive, quando vi essa imagem, foi de alívio. Daquelas sensações que a gente tem quando se sente representada pela primeira vez. Pode parecer besteira, mas aos 18 anos eu tinha cara de menina tonta e frágil e sentia que isso me cobrava algumas coisas que não me interessavam (tipo “ser mais feminina” e me “valorizar”). Então quando eu soube que a Elke, partindo de uma beleza totalmente padrão e de uma carinha de menina faceira, se tornou aquela figura imensa que era, descobri que eu também podia ser quem eu sentia que era (e não quem eu deveria ser).

Claro, a Elke foi modelo, ícone de estilo, atriz e muitas vezes “usou” sua aparência mais padrão, mas nunca se conformou ao que ela demandava. E, pra mim, virou uma espécie de ícone ao qual eu sempre retorno para lembrar que não tenho obrigação nenhuma com expectativas totalmente bizarras, feito padrão de beleza ou feminilidade, posso simplesmente ser uma esquisita que se orgulha de ser esquisita. E que isso pode, inclusive, ser muito bom (eu juro).

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Mas não foi só nas questões que diziam respeito à aparência que a Elke questionou seu “papel de mulher”. Com posições muito assertivas sobre sexualidade, filhos e a papel social, ao longo dos anos, também descobri que nossa Maravilha não só era uma intelectual (fluente em 9 línguas e que se formou em Letras na UFRGS – onde estudei) como também uma mulher muito corajosa. Durante a ditadura, por exemplo, foi parar no DOPS presa após protestos relacionados com o sumiço (e morte) do ativista Stuart Angel, filho da estilista Zuzu Angel, sua amiga. Durante sua prisão, segundo esta entrevista, a Elke diz que pagava de doida para confundir os torturadores.

Resolvi enlouquecer. Quando ia ser levada para interrogatório, eu pintava a sobrancelha com um lápis verde que tinha, desenhava uma boca imensa com batom e enchia a cara de rouge.

E, segue, desdenhando como só ela saberia

Meu pai viveu sob a ditadura de Stálin. Fui preparada para a guerra. O que são seis dias no Dops?

Foi nessa época que Elke, que imigrou da Rússia com a família, perdeu sua cidadania brasileira e se tornou apátrida por alguns anos, até requerer cidadania alemã (sua mãe era alemã).

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Na vida pessoal (tendo, por exemplo, casado 8 vezes) e ao longo de sua vida como pessoa pública ela ajudou a começar a romper com um monte de opressões e noções equivocadas. Mas, claro, a Elke era Maravilha mas era um ser humano e, como todos nós do mundo, viveu no seu contexto, o que quer dizer que falou várias coisas que podemos olhar criticamente, agora, mas que nada disso deve diminuir seu trajeto (até porque perfeição não é característica de humanos e que papo mala esse).

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Então quando ela diz que “nunca foi mulher” porque queria “ser uma pessoa” e poder fazer o que quisesse (inclusive sexo antes do casamento), ela também está nos lembrando do trajeto de onde partimos e dos motivos pelos quais seguimos: porque queremos ser reconhecidas como pessoas e, como tal, nem melhores nem piores (a priori).

Eu nunca fui obediente, mas na minha geração você não podia trepar sem casar. Eu nunca fui mulher, então não tive esse problema, trepei e pronto.

Alguns anos atrás a Elke também falou sobre aborto e maternidade:

Eu tive consciência plena, não fiz filho porque não sei educar uma criança, e porque não posso ter âncoras, filhos são âncoras. Inclusive fiz abortos. Sem a menor culpa porque eu não saberia educar uma criança. Quando você fizer um filho, você tem que estar consciente de que está dando a vida e está dando a morte.

Ou seja, a ansia da Elke é a ansia que muitas de nós ainda tem. E o peso de mundo diminui quando podemos olhar com orgulho para nosso passado recente e dizer: essa mina foda me representou muito. Por isso tenho alegria e não tristeza, porque com a Elke aprendi que posso ser. Obrigada, Elke, por mudar a minha vida e a de tantas outras pessoas que cruzaram o teu caminho, direta ou indiretamente. E, com orgulho, faço minhas tuas palavras:

Fui bem educada, mas não adestrada

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