Quando minha filha era pequena, bem pequena, eu queria muito que ela crescesse pra gente ser amiga. Aliás, foi a primeira coisa que pensei quando ela nasceu: oba, uma parceirinha pra vida!

Eu era bem jovem quando ela nasceu, o que justifica bastante minha estupidez, mas não completamente. A verdade é que ninguém fala a real pras mulheres que vão se tornar mães. É sempre aquele papo de padecer no paraíso, do amor incondicional, do único amor verdadeiro, do cumprimento da missão, blablabla. Ninguém conta como vai ser difícil, que a responsabilidade de tudo vai recair sobre suas costas, que o pai vai ser tratado como herói ao fazer o mínimo, que um post de facebook de um sujeito ausente que só faz merda vai contar muito mais do que a sua vida inteira de dedicação porque afinal, mãe é mãe, né? Aguenta aí, mãe.

E ninguém conta também como é difícil essa fase da adolescência. É claro que lembramos de como éramos trouxas nessa fatídica época da vida, de tudo que teríamos feito diferente se escutássemos nossas sábias mães ou algo que o valha, e é claro também que quando viramos mães achamos que conosco vai ser diferente, que seremos ouvidas, que seremos a mãe legalzona amigona que dá conselhos do jeito certo, não daquele jeito careta que você rejeitava em seu próprio passado, que serão confidentes, que será lindo.

Risos. Choros.

Migas, toda mãe vai ser uma chata. Pra você que é uma iludida como eu fui, escute a voz desta mãe: sua filha (ou seu filho) vai te achar uma chata. Não importa se as amigas dela te amam, se você se porta de forma descolada, se você se considera uma pessoa à frente do seu tempo, se você jura que fala a língua dos jovens. Tudo isso vai envergonhar seu rebento diante das amigas e a única coisa que ela vai desejar realmente é que você desapareça – a não ser quando ela estiver precisando de dinheiro, ou de conselhos, ou estiver chorando por causa de algum idiota, ou quando se meter em encrenca, é claro.

ai mãe

Ai, mãe

Adolescência não vai ser aquele momento em que você vai criar laços incríveis com sua filha. É uma espécie de segundo parto, quando ela deixa de ser criança debaixo da sua asa e começa a contestar, começa a querer se afastar pra criar sua própria identidade e a pior coisa que você pode querer é que ela seja uma cópia sua ou de algo que você esperava. Adolescentes querem descobrir quem são e, com certeza, a última coisa que eles querem ser é sombra ou reflexo dos pais. Eles vão se sentir incompreendidos, injustiçados, solitários, vão odiar o mundo, vão odiar você (vão sim, não se iluda; mesmo que secretamente, eles vão odiar você) e a culpa de tudo vai ser sempre sua, que estragou tudo.

Não se preocupe: todos sobrevivemos a isso. Não sem sequelas, é claro, mas não é assim a vida?

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