Se assumir como feminista envolve muita chatice. Tem quem, por default, passa a te odiar e falar mal de ti. Se não te odeia, fica te comparando com outras minas e dizendo que tu não é como “as outras feministas” (porque não entende bem que com feminista esse troço de competição entre mulheres pra ganhar confiança não cola). Olha. É muita coisa. Mesmo.

Mas a que mais tem me deixado maluca é a ideia de que

>>Feministas querem destruir a família<<

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Eu acho muito louco que esse texto seja tão recorrente em um país onde abandonar é um verbo tão masculino. Onde tantos homens abandonam com tanta aceitação da sociedade. Abandonam as namoradas que engravidam (e as namoradas que fizeram aborto), as esposas que “envelheceram mal”, as esposas grávidas, as esposas e os filhos se um dos dois tiver o azar de adoecer ou só se eles não tiverem paciência pra conviver com mulher e criança, mesmo. Já é suficiente.

Mas não sou eu que estou falando, não precisam acreditar nessa feminista-que-quer-acabar-com-a-família: segundo o Data Popular, em 2015, 31% das mães brasileiras eram solteiras.

E quando não abandonam, muitos desses fervorosos defensores da família, agridem. Porque 19% da população feminina brasileira com mais 16 anos já sofreu algum tipo de agressão, sendo que 31% delas ainda precisam conviver com o agressor e 77% das mulheres que relataram violência dizem que ela é semanal ou diária. Mas são as feministas, que querem acabar com a moral, que lutam para desvincular violência do conceito de família, inclusive criando a lei Maria da Penha. Mas, novamente, não acredite em mim:

A lei incentivou vítimas a denunciarem casos de agressões – só entre 2006 (quando a lei foi sancionada) e 2013, houve aumento de 600% nas denúncias de abuso doméstico.

Então é claro que tantos seguirão colocando como prioridade o verbo difamar-feministas (acreditem em mim, ele existe) enquanto nós lutamos para que permitir seja uma realidade nos direitos reprodutivos, porque a maternidade não deve ser compulsória ou uma punição, mas uma escolha. Eles estão acostumados a estar do lado da violência e do abandono.

Mas nós não, nem queremos, nem iremos.

E, por isso, preciso falar pra vocês do projeto #TodasAsFamílias, que está recebendo definições de família para alterar o verbete da próxima edição do Houaiss. A ideia é incluir e tornar a definição mais ampla e condizente com a realidade nacional (o oposto do que a Comissão do Estatuto da Família fez, ao dizer que família é apenas a união entre um homem e uma mulher).

O que eles tem em comum conosco é exatamente isto: não queremos destruir a família, isso tem sido feito através da violência, abandono e desrespeito sistemáticos. Nós queremos e precisamos reconhecer a dignidade dos modelos familiares que já existem e não são pautados por isso. E ajudar a reformular a ideia de família, para que ela seja formada pelas mães solteiras e pelos pais que não abandonam, pelas mulheres que optaram por ser mães e seus filhos desejados, por todos os casais que, com amor, criam seus filhos para ser pessoas dignas e por pessoas que se unem por afeto e respeito.

família(e gatos, no meu caso, rsss)

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