Normalmente tenho vontade de mandar uma cartinha pra todas as marcas que se apropriam de memes e chamam de ~diálogo~ dizendo: “vocês estão se constrangendo”. Mas tem vezes que o negócio ultrapassa o constrangimento.

Desde que criamos o Lugar de Mulher, uma das coisas que mais repeti foi “uma marca não pode ser feminista, feminismo é uma luta de humanos”. Isso não quer dizer que uma marca não possa alinhar sua postura e apoiar o feminismo, afinal de contas feministas são seres humanos e consomem coisas, de comida até maquiagem. E, certamente, a maioria de nós opta e preferiria consumir marcas que não fizessem da publicidade seu espaço livre para reforçar discursos opressivos, objetificadores, etc.

Enfim, o velho papelão que conhecemos.

Ocorre que isso demanda trabalho e coragem. E a maioria das marcas tem preguiça e medo, apesar de querer agregar as “feministas” como público. Então elas optam por continuar fazendo exatamente o que já faziam, mas se apropriando do discurso.

É o famoso branding tosco.

E isso não é nada saudável. Na verdade, às vezes acho que isso é pior que simplesmente colocar uma mulher de biquini servindo cervejas e chamar ela com um nome não humano. Porque isso esvazia conceitos que são de uma luta importante e que está diretamente atrelada com a dignidade, sobrevivência e respeito, no caso do feminismo.

Por isso quando vi uma revista para mulheres, que já fez matérias relevantes, pedindo colaborações de leitoras para a próxima edição eu fiquei entre chorar e cuspir.

Captura de tela de 2015-09-22 17:02:23

Quer dizer, primeiro de tudo quem vai receber estes nudes? Como saber que não será um stalker em potencial? Como serão confirmadas as identidades? E mais: por que uma revista para mulheres e uma revista para homens continuam com a mesma postura de valorizar mulheres como produtos? Além disso, pedir nudes para as leitoras é uma maneira de produzir conteúdo erótico amador sem precisar pagar por ele. Ou seja, objetificar sem disfarçar.

Mas, pior que isso, não pode ser que a revista acredite que “meu corpo, minhas regras” diz respeito a isso. Isso está mais para “meu corpo, as mesmas regras de sempre”.

revista-tpmPoxa, caras

Existem nudes e existe nudez. E ambas as coisas podem ser libertadoras ou não. E, nesse caso, os nudes não são por um simples motivo: eles são uma apropriação de um movimento de auto empoderamento. Apropriação é quando ignoramos o contexto e simplesmente transplantamos a ideia, feito as marcas sempre fizeram com os memes.

Porque trocar nudes tem mais relação com fazer as pazes, amar o seu corpo e nem sempre está associado com sexualidade. E raramente está associado com se transformar em produto hipersexual para agradar. Na verdade os nudes permitem brincadeiras, descobertas e um olhar menos severo sobre si mesma, seu corpo, sua sexualidade. Feito os selfies. Eles querem abolir a “cagação de regras”.

Já a nudez das revistas é aquele tipo que diz que as mulheres valem mais pelo que aparentam, como em colunas com o texto de “Mulheres que admiramos” e imagens de uma mulher seminua. Nada contra, mas as mulheres podem ser admiradas vestidas, ou até sem imagens associadas. Feito os homens. Existimos para além só do que se vê. Mas raramente somos colocadas assim fora de revistas com uma pegada mais formal.

E insistimos nisso porque essa é uma causa muito feminista: nós podemos e devemos amar e ver nossas qualidades que não estejam atreladas com ser um objeto decorativo. Isso é “meu corpo, minhas regras”. Para mostrar ou esconder, para me colocar como quiser, mas para sempre ser compreendida como um ser humano.

A nudez que não está nas revistas, assim como os nudes, também é diferente. E muito do que os nudes são está relacionado com a nudez. Porque, ainda que nos nudes possamos escolher iluminação, ângulo, etc, eles nos ajudam a (literalmente) ver que não tem nada de errado com estrias, celulites, barrigas, seios caídos, pêlos encravados, uma pele nem tão lisa, etc. Ou porque todos tem ou porque nossas estrias, celulites, barrigas, seios caídos, pelos encravados, pele nem tão lisa, etc, são bem recebidas por quem foi presenteado com um nude nosso.

Nude, como eu conheço, é acolhimento. Pode ter desejo? Pode. Mas desejo que acolhe. Nude que julga é coisa de subcelebridade nadaver de internet. Diboa.

Não sei como será a campanha/ensaio, mas tenho quase certeza que, após a recepção negativa pela maioria das feministas, ela pregará uma inclusão estética. Mas isso não quer dizer que ela não seja objetificadora. Que não seja uma marca se apropriando de um processo individual, pessoal, alheio ao consumo, para colocar as mulheres exatamente da mesma forma que sempre fomos colocadas.

E nós podemos mais. E queremos mais. E não tomem como ofensa mortal, porque estamos dispostas a dialogar com toda marca que quiser fazer diferente, mudar, passando a lidar com as mulheres como humanas, com mais dimensões que só a visual. Inclusive, pode mandar um email pra gente, se quiser.

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