Nos últimos tempos tenho vivido frustradíssima a máxima: santo de casa não faz milagre.

Eu tenho uma filha de 11 anos.

Ela é uma menina querida, inteligente, carinhosa e também uma peste, pois nessa idade todos fomos e todos são.

Tento passar pra Catarina tudo que eu acredito na vida. Igualdade de gêneros. Liberdade pra ser quem quiser. Questionamento dos padrões de beleza. Tudo isso que tratamos aqui neste lindo site, como vocês podem imaginar. Temos a ilusão de que, ensinando aos filhos o que acreditamos, eles vão absorver como o certo, como o que se deve fazer. Acontece que, em nossos planos, esquecemos que eles não vivem na nossa bolha de princípios por muito tempo. Existe todo um mundo lá fora e ele não é nada legal com as meninas.

Minha filha tem o cabelo ondulado como o meu. Mas ela usa chapinha todos os dias; quer que o cabelo fique como o da menina que ela vê no seriado, como o da menina cuja música ela consome. Adianta eu falar qualquer coisa? Não adianta.

Todos temos modelos de comportamento e estéticos, estou careca de saber, ainda mais nessa idade de busca de identidade. Eu mesma copiava ostensivamente o Mike Patton e o Rachel Bolan (ambos homens, provavelmente porque não conseguia me identificar com o que o mundo oferecia às meninas). Certo. E essas meninas cuja música ela consome, cujo seriado ela assiste, como vocês acham que elas são? Brancas. Magérrimas. Não tem ninguém com outro biotipo, e quando tem, é a “amiga zoada” ou a menina com quem ninguém quer sair.

Ariana Grande, cantora que ela adora, aparenta ter uns 40 quilos. Ela não era assim em um passado recente, quando atuava em Victorious, série da Nickelodeon (me deixem, eu sei mesmo), mas ficou. Diz que é consequência de uma “vida saudável”, mas vai saber, né? Conhecendo essa indústria, não posso deixar de achar que isso foi uma “condição”.

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Minha filha acha essa magreza linda e apesar de não assumir pra mim pois sabe o que eu penso a respeito, sei que não se vê com bons olhos no espelho e se acha “pesada”, pra usar as palavras dela.

Ainda bem que gosta também da Demi Lovato, que, depois de anos sofrendo com distúrbios alimentares  e tendo seu peso e corpo escrutinados pela imprensa, agora traz à tona o assunto entre suas fãs, defende lindamente o feminismo e faz uma música dizendo que mesmo que as estrelas e a lua se choquem ela não quer saber do cara cuzão de volta na vida dela, quando o mais comum nessas músicas de adolescente é o choramingo de volta pra mim.

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Nessa semana Demi postou essa foto no Instagram com a seguinte legenda: Essa foto me faz sentir muitas coisas misturadas… Eu lembro do dia em que usei o vestido da primeira foto. Eu lembro de pedir uma cinta para achatar meu estômago porque estava me sentindo pesada e “gorda”. Agora olhando para essa foto, você pode ver os ossos dos meus quadris. Isso me deixa triste porque perdi muitos anos com vergonha do me corpo quando eu poderia estar vivendo a vida feliz e saudável que vivo hoje. Isso é MESMO só pra mostrar que a sua percepção pode mentir pra você. OU pode te fazer aprender a aproveitar a vida. Felizmente me olhando na foto de vestido vermelho ontem, não só me sinto grata pelo amor e apoio de amigos e fãs e família… Eu também me sinto… Bonita. Estou muito feliz de viver minha vida do jeito que mereço. Obrigada fãs… Sou muito grata por meus “Lovatics”, amo vocês… E nunca esqueçam que se manter forte vale a pena.

Quer dizer. Se essa menina linda e totalmente dentro do padrão sofreu assim, só imaginem o quanto adolescentes “comuns” sofrem?

Ela gosta também de One Direction. Não acho de todo mal. Mas aí tem uma música, um dos grandes hits, que diz: você não sabe que é bonita e é isso que te faz bonita. PERA, O QUÊ? Vocês estão afirmando que o que torna uma garota bonita é ela NÃO saber? Mesmo? Que maravilha de coisa desempoderadora.  E dá-lhe minha filha dizendo que se acha feia, mesmo comigo arrancando os cabelos cada vez que ela diz isso. Não estou culpando a música, viu? A adolescência é uma idade complicada pra auto-imagem e foi lá mesmo que começaram meus próprios distúrbios alimentares (sim, eu já passei por isso). Mas tenho certeza que esse tipo de coisa ajuda na cagada toda.

Não vou nem cogitar banir essas coisas da vida dela. A cultura pop é uma cola social importante para os pré-adolescentes e adolescentes e eu não vou ser ser a pessoa que vai fazer dela uma alienada diante dos amigos. Já basta a pressão de grupo comum nessa idade, não acho que isso seja coisa que se faça. Além do mais, bem lembro que proibir é aumentar automaticamente o interesse, então: não.

Mas e aí, faz o que, se essa indústria não consegue dar um exemplo positivo para as meninas?

É uma pergunta mesmo. Geralmente tenho uma resposta, sou dessas pessoas que têm resposta pra quase tudo, mas pra isso eu não tenho.

Quando somos adultas podemos nos cercar de exemplos positivos, mas e as adolescentes, que não têm essa consciência e acham que a mãe que está tentando ajudar é uma chata invasiva?

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