Ontem, na abertura da Copa do Mundo da FIFA, aqui em SP, 64 crianças se apresentaram vestidas de jogadores de futebol. Entre elas, apenas uma era menina.

O feito foi celebrado pelos comentaristas, todos homens, como uma vitória. E isso é só mais um dos exemplos da abordagem machista e sem noção que parece permitida ao esporte, por aqui.

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Garanto que a maioria de nós não esqueceu o caso da bandeirinha que não podia errar, nem a avalanche de veículos supostamente jornalísticos usando a expressão Maria-Chuteira. É tanto tiro pra todo lado, que o Impedimento fez uma compilação de chorume misógino na cobertura do esporte, por aqui.

E tudo isso no país de Marta. Marta Maravilha. Rainha do futebol.

Pros poucos que não sabem, a jogadora foi escolhida a melhor do mundo cinco vezes consecutivas (um record tanto entre mulheres quanto entre homens). Atualmente jogando fora do Brasil, quem a viu em campo garante que é daquelas experiências sublimes, quase místicas.

Mas o começo, claro, não foi fácil. Futebol é uma coisa que o pai quer pros filhos, não pras filhas: “As pessoas não viam com bons olhos uma menina jogando bola no meio de um monte de garotos. E minha família pensava da mesma forma”.

E é a própria Marta quem garante que o tratamento dado para as jogadoras aqui é diferente. A primeira diferença está na falta de profissionalismo: “No Brasil, a modalidade ainda é vista como amadora. Na Europa, muitas atletas vivem do futebol e são seguidas por milhares de fãs mirins e adultos. Os campeonatos nacionais e internacionais já existem há bastante tempo. A Liga Sueca Feminina, por exemplo, existe desde 1988”.

Por aqui, o futebol feminino rareia. O próprio Santos, time da Marta, encerrou suas atividades no futebol no ramo em 2012. Segundo o presidente, por falta de interesse da televisão e de patrocinadores: “Somos subordinados à CBF, que não tem interesse no futebol feminino”

Mas Marta não é boba, e aproveita sua popularidade para servir de porta-voz pela profissionalização e valorização do esporte nacional, ajudando a divulgar iniciativas como, por exemplo, o “Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino”, criado em 2013. Sim. 2013.

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Ela também é a artilheira da nossa Seleção de Futebol Feminino, que está super bem posicionada no ranking da FIFA, que organiza uma Copa do Mundo de Futebol Feminino (a próxima será no Canadá).

E mesmo assim, o chefão e jacu do Blatter, já soltou a máxima, digna do site Ego: “Deixem as mulheres usarem roupas mais femininas, como elas fazem no vôlei. Elas deveriam, por exemplo, usar shorts mais apertados”.

Claro, moso, tudo o que uma pessoa que se dedica em ser foda na sua profissão quer é ser reconhecida pela bunda. Ta sertinho.

Mas deixa estar. Tou botando fé que o grande legado dessa Copa (na falta de metrô em POA) será o fim da aceitação aos comentários chorumentos e misóginos como algo normal*. Não são normais. E nós temos Marta para provar.

*e, se possível a queda dos reinados infernais, também

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