Eu não sou muito de BBB. Esta edição, em especial, não veria mesmo e por um motivo bem simples: Adrilles, segundo jornais e blogs, é um stalker e, como já contei aqui, eu tive um stalker. Pra mim nada desculpa reviver esse terror ou normalizar essa violência.

Mas, esses dias, notei que toda minha timeline de Twitter estava falando mal de uma mulher chamada Amanda. Perguntei o motivo e recebi uma enxurrada de links. Neles entendi que Amanda gosta de Fernando que, apesar de ficar com ela, não pretende ter nada com Amanda, mas ela não se dá por vencida.

“Ué”, pensei, “quem nunca se apaixonou e fez ridículo?”. Daí lembrei de um dos hits do Fernando Pessoa, O Poema em Linha Reta:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
(…)
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.

Então quero deixar logo claro que este não é um post defendendo o BBB, mas sim uma defesa do nosso direito inalienável de gostar de alguém que não gosta da gente sem achar que isso nos torna as mulheres mais hediondas e ridículas do mundo.

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O primeiro passo pra entender isso é saber que quando falamos: nossa função no mundo não é agradar, não estamos falando apenas de um mundo ideal onde somos todas independentes batendo cabelo. Também estamos falando sobre as ocorrências que são tão normais na vida e nos fazem sentir tão pequenas. A Clara já escreveu aqui sobre rejeição. Ninguém curte ser rejeitado, mas só nas mulheres isso se torna uma vergonha para a vida:

E é isso aí, não somos treinadas para lidar com rejeição (tanto que criaram aquela palhaçada de negging a partir dessa fragilidade) mas faz parte da vida então vombora.

O segundo passo é reconhecer que todo mundo já passou isso. Todo mundo mesmo. Até os sociopatas e serial killers passam. Só tem gente que sabe mentir melhor. Anos atrás, logo que fiquei solteira após um relacionamento longo, me interessei por um cara mas não sabia o que fazer. Daí perguntei para um amigo muito querido como demonstrar esse interesse e fomos conversando até ele notar que eu, com quase 30 anos na época, nunca tinha tomado um toco porque nunca tinha tomado esse tipo de iniciativa.

Pode parecer irreal, mas eu (assim como tu que tá lendo) sou fruto dessa cultura onde as mulheres esperam. Onde até os livros descoladinhos de autores de seriados descoladinhos (sim, estou falando de Ele simplesmente não está afim de você) nos dizem que devemos esperar. Esperar que o homem se interesse, te olhe, puxe conversa, te ligue, te mande mensagem, etc. Uma vida construída em torno da ideia de esperar também acaba criando essas coisas que a maioria de nós vive pensando em loop eterno: “será que”, “e se”, etc.

oculosAlerta de cara gato!

Então decidi que não queria mais ser essa pessoa que vive dentro da cabeça, até porque notei que esse texto de que “os homens gostam é disso, da arte da conquista” ignora que conquista é uma coisa mútua. Ou seja, não somos um território para ser conquistadas. Na pior das hipóteses somos dois adultos tentando e nos dando mal.

Mas: acontece. Se dar mal, ser rejeitada, etc, nada disso é um monstro. Essas coisas acontecem.

E se tu te interessa por um cara que nem te notou e tu resolve tomar a iniciativa mesmo assim, tudo bem. Pode rolar. Também pode não rolar. C’est la vie.

Ai chegamos na situação, pelo que entendi, da Amanda. Porque até onde eu li o Fernando não foi exatamente um agente passivo nessa coisa toda. E um homem que se empenha em te conquistar mesmo sem ter vontade de ter nada contigo é a anomalia masculina dessa sociedade que cria as mulheres para esperar e homens para conquistar.

Ou seja, nesse super trunfo ninguém ganha.

faz de conta que sou o primeiro

Acho que na minha vida conheci mais homens que tentavam me conquistar mesmo sem querer nada comigo que homens que tentavam me conquistar porque queriam algo. Existe um certo status em manter uma mulher “no seu pé” e nós sabemos disso. E gostaria de poder dizer que não caí nessa história nenhuma vez, mas só posso dizer que as vezes que caí me deixaram bem claro que aquele cara não queria o mesmo que eu.

Eu sou o tipo de gente que nunca teve complexidade emocional o suficiente para achar que jogos mentais são melhores que cafuné. Aos poucos fui aceitando que gosto, mesmo, é demonstrar pras pessoas que estou encantada por elas, quando estou. Gosto de trocar elogios, gentilezas, interesses. E nem preciso estar apaixonada pra isso. Eu faço isso com amigos e com pessoas em geral que quero orbitar em volta.

Agora imagine ser uma adepta das demonstrações de afeto em um mundo que prega que devemos ser alheios a isso.

crazy

Então, olha, eu entendo a Amanda.

Pra ti ela pode estar só sendo ridícula, mas pra mim ela tá vivendo profundamente. E depois que eu aprendi como se faz isso, mesmo das vezes que eu fui mais socialmente patética não me arrependo. Nem um pouquinho. Parafraseando, novamente, o Fernando Pessoa: afeto é sempre ridículo. Essa postura comedida que cobram das mulheres não é natural nem divertida. Saber o que eu quero e não ter medo de demonstrar me tornou uma mulher mais forte, livre e feliz do que eu era antes, quando tinha medo do que os outros vão falar. Ter medo do ridículo é viver pela metade.

You, go, Amanda!

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