Poucas coisas parecem tão certeiras em cativar geral quanto discursos fatalistas . É quase um fetiche dos nossos dias decretar a morte de tudo, especialmente se a grande culpada for a tecnologia. Bad tecnologia.

E quando o assunto é amor, pessoal simplesmente entra em combustão espontânea. Inclusive, parece que cada frustração que sofremos, agora, serve para fundamentar longas listas de como é ruim e ultra tecnológico o romance moderno.

Se um ET chegasse no mundo ele leria essas coisas e teria certeza que antes dos aplicativos não existiam relacionamentos ruins, corações partidos e parceiros cuzões.

Mas, como alguém que vem do passado, posso afirmar: sempre existiram. E sempre foram a maioria, sim.

E isso, per se, explica aquelas pessoas escrotas que terminam relacionamentos pelo Instagram e afins. A culpa não é do Instagram, é da pessoa, que faria isso com a ferramenta que tivesse em mãos.

babaca^^^“Ele pode parecer um idiota e até agir como um idiota, mas não se deixe enganar: ele é um idiota!” Groucho Marx

Outra coisa que não compreendo é acreditar que os relacionamentos e as trocas profundas podem ser comprometidos pelo declínio de popularidade do romantismo, que seria culpa ~claro~ das redes sociais.

O Atlantic, por exemplo, jura que o romance online tornou muito fácil conhecer alguém, aumentando o padrão dos relacionamentos e, assim, ameaçando a monogamia. Que, ao que tudo indica, sempre foi baseada em se contentar com relacionamentos medíocres.

Já o NY Times bota fé que o toda essa tecnologia está acabando com a fase da conquista, esse ballet romântico. Coisa que o Independent considera um desleixo nosso, pois: estamos deixando o romantismo de lado.

E já digo que, de onde vejo, isso não passa de balela. Talvez eu pense até o oposto já que, quanto mais fácil parecem se tornar nossas aproximações afetivas, mais parece crescer a venda de romances que oferecem a redenção pelo amor.

Me recuso a procurar dados, mas de que outra forma explicaríamos a avalanche sazonal desses romances sofridos? Esses movimentadores de dinheiro costumam ser best sellers e depois virar filmes apenas afirmando que um certo tipo de amor existe.

E quem compra esses livros (inclusive em seus gadgets de leitura) o faz exatamente por acreditar (ou querer acreditar) nesse romantismo aí.

emojiE talvez exista mesmo, quem ousaria dizer que não com provas tão contundentes?

Dito isto, queria debater com vocês o quanto é bom para todos nós que esse tipo de ideia de romantismo ainda seja tão forte (e ryca).

(e, antes que me acusem, eu tenho sentimentos, sim)

Me parece que muito desse ideal romântico aí gira em torno de não ver o outro, que está ali na tua frente. A culpa pode até  estar nas estrelas, mas isso (seja em roupinha de casamento na igreja ou de relacionamento aberto) não deixa de ser uma maneira meio escrota de ser.

Não?

Deixa ver se consigo explicar melhor: se tu tem uma ideia de como devem ser as coisas antes de elas acontecerem, tu não ta te relacionando com ninguém além de ti, não é verdade? E quem se relaciona com sua própria ideia de romance deveria, ao menos, assumir que ela veio antes do outro e vai continuar depois. Em quem for.

Além disso, esse tipo de construção ideal só existe pra nos decepcionar com a vida, que pode ser muito boa se olharmos melhor. Vonnegut explicou assim:

Por termos crescido cercados por histórias com grandes arcos dramáticos, em livros e filmes, acreditamos que nossas vidas devem ser cheias de imensos altos & baixos! Por isso pessoal simula que existe drama onde não existe nenhum.

Nesse caso, desacreditar um pouquinho isso tudo só poderia fazer bem aos relacionamentos, que passariam a ser mais sobre duas pessoas num improv louco que sobre expectativas e frustração. Né?

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Então, NY Times, Atlantic e Independent (e tantos outros que perdi o link), deixem a galera marcar pelo whatsapp de ir no bar. Talvez só estejamos querendo viver o mais longe possível da pressão desses ideais loucos de como precisa ser e parecer amor.

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