Peço a permissão de vocês para fazer um exercício imaginativo. Um individuo, bem pimpão, acha que teve uma grande ideia. Ele ou eles, são de um órgão governamental, no caso, o Ministério da Justiça ou uma agência contratada por eles.

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Em 2014, com a proximidade do carnaval, eles lançam uma campanha com o nome “Bebeu, perdeu”. O objetivo dessa campanha seria diminuir o consumo de álcool entre os jovens.

Segundo eles, principalmente entre os menores de idade. Observando as fotos da campanha, penso que ela foi equivocada desde o começo.

Primeiro o slogan da campanha: NÃO BEBA. Isso é cagação de regra governamental. Se a pessoa tem 18 anos ou mais, em plena sanidade, ela pode decidir se vai beber ou não. O governo ajudaria mais com campanhas de conscientização sobre ingerir bebida com responsabilidade, como beber e não dirigir. Quanto aos menores de idade, a fiscalização eficiente para conter a comercialização também seria um bom começo.

Hoje, em fevereiro de 2015, os feras alcançaram seu apogeu. Lançaram mais uma foto da campanha. Nela, uma mulher está ao celular. Um pouco atrás dela, duas outras mulheres dão risada enquanto olham para ela e também seguram um celular.

bebeu perdeu

A mensagem da campanha: “BEBEU DEMAIS E ESQUECEU O QUE FEZ? SEUS AMIGOS VÃO TE
LEMBRAR POR MUITO TEMPO.” E continua: “Bebeu, perdeu. Curta a vida sem beber.” A preguiça e o desleixo começaram aqui: a foto que ilustra a campanha foi pega na internet. Em um site de imagens. O título da foto original: “Teenage Girl Being Bullied By Text Message on Mobile Phone” (garota adolescente sofrendo bullying via SMS). Que beleza! Já começa com uma foto cujo contexto é uma agressão que causa danos em muitas pessoas, o bullying. Além de incentivar a velha tradição de que as mulheres são adversárias.

Você bebeu, colega? Aguente as consequências. Você será vítima de escárnio, caso haja alguma situação que considerem motivo para rir. E bem PIOR, você será culpada se for assediada, estuprada, assassinada ou vítima de qualquer crime. Não beba, miga. Mas eu gosto! Então, já está ciente do que pode acontecer com você.

Uma campanha como essa reforça e institucionaliza esses conceitos de MERDA.

Um casinho para ilustrar de que forma isso é absolutamente imbecil. Certa vez, fui em uma festa. No final da festa, me despedi das amigas que me acompanhavam porque um cara tinha me oferecido uma carona. Diante delas, entrei alegremente no carro dele. Estava sim, sob o efeito do álcool, mas se tivesse vontade de transar com ele a história poderia acabar aqui, só que eu só queria uma carona. Logo ele desviou do caminho e parou o carro em uma rua escura e deserta, desligou o carro e veio para cima de mim. Eu me desesperei, tentei me desvencilhar a todo custo e comecei a gritar. Eu dei uma mordida nele, ele me agrediu e falou:

“NÃO ERA ISSO QUE VOCÊ QUERIA?”

Eu não parava de gritar e ele, não sei por que, me jogou do carro naquele lugar e foi embora. Chovia muito, e eu chorava de felicidade e alívio: tinha conseguido me livrar do estupro. Não me lembro exatamente como consegui voltar para casa.

Vagabunda, quem mandou beber tanto? Por essas e outras não fui a delegacia. Só mais um detalhe: ele era meu colega de trabalho. Quem iria acreditar em mim? Todo mundo viu eu entrar no carro dele sem ser forçada.

Como eu estava errada…como. Hoje, anos depois, sei que deveria ter denunciado. Entrar no carro dele não era sinal de que eu queria trepar com ele. E mesmo se eu entrasse e tivesse a intenção de trepar, poderia ter mudado de ideia a QUALQUER momento.

campanha_anti_estupro_021Campanhas não equivocadas são possíveis: Álcool não é causa de estupro, estupradores são a causa de estupros (#ÁlcoolNãoÉConsentimento)

Voltando ao assunto do post, por favor entendam como uma campanha como essa é nociva.

Mulher não pode beber. Se bebe e acontece algo é porque ela quis. Foi numa festa e passou
mal? Óbvio que foi pelo excesso de bebida.

Não. Não. Não. Podemos beber, podemos ir ao bar sozinhas, podemos ir com quem quisermos, podemos abrir a geladeira e só ter cerveja nela, isso não nos faz culpadas pela existência dos agressores. E se bebemos demais estamos dando permissão para que se aproximem e abusem de nós? De novo, não.

Patrulheiros: não estou fazendo apologia ao consumo excessivo de bebida. É claro que ele deve ser feito com responsabilidade, principalmente quando o consumo afeta a vida das outras pessoas, como a ocorrência de acidentes de transito causados por condutores embriagados.

Mas culpabilizar a mulher por ser vítima utilizando a ingestão de bebida como álibi, não pode, cara.

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Campanhas instrutivas necessárias: “Só porque ela não está dizendo não… não quer dizer que ela está dizendo sim” (sexo sem consentimento é agressão sexual: NÃO SEJA ESSE CARA)

Em tempo: a campanha foi retirada da internet depois da enxurrada de questionamentos que ela causou. Poderia ser uma boa lição para que eles escolhessem pessoas sensíveis a essas pautas. Esqueçam o gênio que copiou e colou uma foto da internet e criou uma frase que ele considerou esperta.

Segundo o governo, um grupo de jornalistas (gostaria de saber quem são) tinha aprovado a campanha.

Pois é, deu ruim.

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