Eu sou a ansiedade em pessoa. E, sendo assim, quando telefono para alguém que não conheço, já mando meu nome, sobrenome, quem represento e eteceteras antes mesmo de perguntar se a pessoa tá bem, tá viva, tá respirando e pode falar comigo. Não seria diferente aqui.

Elisa Polonio, relações-públicas, 31 anos, três mamografias e incontáveis ultrassonografias mamárias.

Não, você não leu errado. Ao contrário que o senso comum prega nas revistas, programas de TV, sites e entrevistas de rádio, tenho menos de 35 anos e há sete já conto com uma rotina de exames de prevenção ao câncer de mama por um motivo muito simples: câncer é uma palavra que, infelizmente, não é novidade para mim.

Fui diagnosticada em estágio avançado e combati um câncer no sistema linfático há sete anos (abre parênteses – calma, galera, hoje em dia estou bem, curada, linda e maravilhosa, obrigada – fecha parênteses). Como a região das mamas estão entre as partes do corpo mais irrigadas por vasos linfáticos, desenvolver um câncer nessa área – ainda mais com um diagnóstico em estágio avançado de linfoma – não é a coisa mais improvável do mundo. Com isso, após eu lidar com todo aquele baque de diagnóstico, início de tratamento, raspar a cabeça (sim, perdi quase todo o meu cabelo quando iniciei a quimio) e adequar toda a minha vida, rotina e alimentação, dentre a batelada de guias de exame que recebi estava a própria: a mamografia. A partir daí, iniciei meu caminho sem volta em um dos seletos – porém nada primorosos – grupos de risco do câncer de mama.

Durante as sessões de quimioterapia, conheci poucas moças da minha idade na época. As poucas que conheci – adivinha? – estavam tratando câncer de mama.

Tanto que era praxe alguém se aproximar de mim e perguntar da “cirurgia da mama”. Nesses idos de tratamento e convalescença, jamais vou me esquecer de uma menina mais nova que eu na época (ela tinha 22 anos), acompanhada da mãe, usando uma peruca lisa e uma mistura forte de tristeza com resignação no olhar. Puxei conversa com ela, que, ao contrário de mim, não estava se contorcendo de enjoos.

– Você parece bem. Eu estou enjoando bastante hoje – iniciei.

– Ah, comigo é sempre assim. Mas o médico me passou a quimio para

reduzir o tumor e conseguir fazer a cirurgia, e não para eliminá-lo todo.

– Que bom! Você vai voltar a ficar bem.

– Não sei, moça. O médico falou que está muito grande e talvez ele tenha que realizar uma mastectomia (eliminação de uma ou ambas as mamas).

Parei a conversa na hora.

Até então, eu achava que meu calvário estava tenso. Ao meu lado, estava uma menina mais nova que eu, que muito provavelmente teria que eliminar uma das mamas. Uma menina de 22 anos, não uma de meia-idade ou idosa, como as propagandas de conscientização mostram.

Eu nunca mais a vi. Porém, o rosto dela e das demais meninas que na época lutavam contra o câncer de mama, vez ou outra, aparecem na minha mente quando eu estou com meus pedidos médicos de exame de rotina. Que eu realizo, religiosamente, em todo mês de agosto ou, no máximo, setembro.

Vejo muitas meninas simpáticas ao #OutubroRosa, achando tudo muito legal, simpático, cor-de-rosa e tal; porém, sem se darem conta que o câncer de mama, infelizmente, não é a doença exclusiva daquela prima-da-vizinha-da-mãe mastectomizada que anda com lencinho na cabeça. O cancro mamário é herdado geneticamente em 5% dos casos, além de ser uma doença principalmente adquirida em fatores de risco, tais como: primeira menstruação precoce, menopausa tardia, tabagismo, obesidade, estresse, uso de reposição hormonal – além de a ocorrência ser maior em mulheres acima de 50 anos. Quanto ao gênero nato, a proporção da doença em mulheres x homens é 100:1.

autoexameImagem daqui

É por isso que estou escrevendo esse texto e imploro, imploro, imploro (e, se acharem ruim, imploro mais ainda): façam o autoexame todo santo mês, visitem religiosamente o médico ginecologista pelo menos uma vez por ano e conversem não só a respeito de Papanicolau e anticoncepcional, mas sobre as mamas também.

Se há histórico na sua família, especialmente na parte materna, investigue, acompanhe isso de perto, não dê mole. Repito: o câncer de mama não é doença exclusiva de mulheres com idade mais avançada. Aliás, quanto mais jovem a mulher é diagnosticada, mais agressivo tende a ser o tumor. Eu não gostaria de causar pânico quanto a isso, porém, os fatos clínicos relacionados a isso são os seguintes:

1) se o câncer é diagnosticado cedo, existe mais tempo para ele recidivar (voltar), em função da nossa atual expectativa de vida (cruzemos os dedos).

2) pacientes abaixo de 35 anos habitualmente são ligados aos 5% de transmissão genética citados acima – e esses cânceres “não respeitam”, digamos assim, o intervalo de multiplicação celular; o que dificulta o diagnóstico precoce e, consequentemente, o tratamento.

De qualquer modo, isso não invalida o que os médicos vivem martelando nos consultórios: quanto mais cedo ele é diagnosticado, maiores as chances de cura.

Conforme os anos passam, minha chance de desenvolver câncer de mama em decorrência do linfoma diminui, porém aumenta por conta da idade e demais fatores de risco, como o fato de toda a minha família ser eurodescendente, eu nunca ter gerado filhos – tampouco amamentado – além de ter tido uma menarca precoce e fazer uso de anticoncepcionais.

Embora cada ano em que meus exames apresentem resultados negativos seja um alívio, eu não poderia encerrar esse texto sem lembrar e mencionar as mulheres que infelizmente não resistiram ao câncer de mama – entre elas, a querida Maud, prima da minha mãe, que tinha um intenso amor pela vida, mas sucumbiu às metástases: elas também foram guerreiras.

Qualquer mulher que tenha a sede de viver e continuar existindo como motivação para superar essa doença deve ser lembrada e exaltada sim. Afinal, elas pelearam. Tanto quanto ou mais que eu, embora sejam situações diferentes.

*Para esse texto, tive a consultoria da minha querida “prima postiça”, Dra. Fernanda Nunes, que é médica Mastologista. Ela acompanhou e me apoiou nos períodos mais críticos dessa historinha toda. Muito obrigada, Fer!

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