Um absurdo nunca é só um fato isolado, horrendo, boiando no ar. Nós nos acomodamos em uma posição confortável da civilidade acreditando que existem cláusulas pétreas que mediam as relações entre seres humanos. Aí quando o horror acontece nos chocamos.

Mas temos o direito de nos chocar quando estamos há anos ouvindo os cascos dos cavalos batendo no chão e chegando?

“Não, os cavalos jamais chegarão!”, pensamos.

Direitos são processos permanentes de luta. Nenhum direito é conquistado. Estão sempre vindo os cavalos para pisoteá-los.

Quando um juiz permite que se trate uma condição natural do ser humano como se fosse doença estamos lidando com uma educação horrível, com uma desigualdade chocante, com a ideia da magistratura como espaço de opinião e não de justiça. É um cenário tão horrendo que não podemos apelar nem para objetividade (afinal existem instâncias e instituições com muita credibilidade que ajudaram a sociedade a ultrapassar a ideia de sexualidade desviante dos homossexuais) e nem a compaixão (afinal existem as próprias pessoas dizendo que não são doentes).

Ou seja, o nosso inimigo (é assim que eu vou chamar agora) não se sensibiliza nem com fatos nem com afeto. É a cavalaria da burrice e do ódio. Cegos e violentos e com licença para matar.

E aí quando o absurdo ocorre, a gente se choca e logo depois ironiza e faz piada, afinal é só gente burra, desinformada e insensível. E não percebe que o perigo reside justamente aí.

Patologização da sexualidade, patologização dos corpos, patologização de identidades. O que esse juiz está dizendo é que não existe lugar no mundo para gente como eu. E que eu precisaria e deveria procurar tratamento para poder conviver socialmente.

Aí depois do horror, sempre cai mais um véu dos neo conservadores que não são liberais nem quando o assunto é deixar o outro quieto “mas o psicólogo tem direito de oferecer e o consumidor tem o direito de contratar os serviço” – não entendo pq a mesma lógica não se aplica ao aborto, por exemplo. Dois pesos e duas medidas onde os pesos e as medidas são a nossa carcaça inerte. Esmagada pelos cavalos.

Os cascos batiam no chão e os humoristas brigavam para continuar fazendo piada de “viado” porque o mundo estava muito chato, os cascos batiam no chão e celebridade popular declarava que “não queria filho viado para que ele não sofresse, mas nada contra” os cascos batiam no chão e um político urrava que “viadagem de filho se curava com surra” os cascos batiam e pessoas trans estavam se jogando da janela sem conseguir enfrentar o horror cotidiano, os cascos batiam e as pessoas heterossexuais intelectualizadas, progressistas e de bom coração fingiam que não era com elas, afinal existem “problemas maiores”.

Os cavalos chegaram. E sinto informar que pisotear identidades minoritárias é só o começo.

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