É maravilhoso que toda mulher tenha como lema ‘my body, my rules’, um norte magnético pra guiar nossas escolhas. Tomara que um dia cada ser humano escale o Everest de sua dignidade e finque essa bandeira no cume de sua auto-confiança.

Infelizmente, enquanto coletividade, existem incontáveis ‘rules’ que a sociedade inventa para aprisionar e explorar nossos ‘bodies’,  especialmente quando se trata de corpos femininos a serviço da comunicação de massa.

A televisão brasileira, incluindo os conteúdos de sua produção e de seus parceiros, tem sido um reduto machista que há 60 anos vem dispondo dos corpos de mulheres nos mais variados papéis cenográficos, que vão desde funções de adorno de merchandising, gif animado coletivo em forma de ballet, escada para apresentadores e personagens tolinhas de esquetes de humor até o de bonecas hormonalmente infladas para atender impulsos sexuais dos telespectadores do gênero masculino.

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Evidentemente essas mulheres também fizeram opções e estão lá porque aceitaram o emprego, o salário, a exposição, os benefícios da fama, seja de forma consciente ou por mera ilusão. Elas não foram coagidas e estão lá supostamente atendendo a um ‘mercado’.

Em nome desse mercado, uma garota que ocupa um desses papéis foi demitida de um programa de TV porque tinha celulite.

Como a celulite é uma presença comum corpos femininos, ela se torna visível em HD. Visível porque real, porque existe, visível como eu, você, como a mãe do diretor do programa.

O diretor do programa, o produtor, o apresentador e todos os envolvidos, no entanto, não demitiriam a mãe por ela existir ou por ter rugas.

Já a moça que tem celulite não teve a mesma sorte.

Ao saber desse fato, uma profissional da área de saúde, que sabe que celulite faz parte do corpo real das mulheres, questionou um dos representantes do programa, perguntando se esse tipo de exigência não seria um estímulo para que toda garota contratada começasse a consumir produtos lícitos e ilícitos para moldar o corpo em busca dessa perfeição impossível. E ele respondeu:

–  A gente vive de audiência e o mercado exige corpo perfeito, não tem jeito!

Perfeito em que sentido? Perfeito para quem? Perfeito para o quê? Perfeito como uma heroína ficcional de quadrinhos? Perfeito como uma Barbie de proporções impossíveis? Perfeito para caber no imaginário masculino que quer ser visualmente estimulado para praticar seu fapping? Perfeito para atender uma indústria que tenta impor um padrão irreal para mulheres reais?

Ninguém jamais vai admitir que demitiu uma mulher porque tinha celulite. Ou ficou velha. Engordou. Ou, em machês, ‘embarangou’. Mas acontece o tempo todo, em todo lugar. E se vão empurrar a culpa pro mercado, vamos mudar o mercado. Porque o mercado somos nós. E juntas podemos mudar essas regras. Ou acabar com o jogo.

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