Essa semana li ainda outra notícia sobre uma menina que sofreu violência física de outras meninas. O motivo, parece, se repetiu: ser muito bonita.

São casos extremos (ainda que nem tão incomuns), mas o ódio entre as mulheres é uma coisa cotidiana. E se a gente para pra pensar não é difícil notar que ele é só mais um sintoma e nós somos as principais vítimas.

Sim, porque além de sofrermos diversos tipos de violência também aprendemos a reproduzir algumas delas. E fazemos isso vendo umas às outras como rivais, vilãs e potenciais inimigas. Mas não para por aí, porque, sendo mulheres ensinadas a odiar mulheres, uma coisa é inevitável: acabamos odiando a nós mesmas.

mena girls 4

E eu boto fé que muito desse ódio começa assim que nos notamos mulheres (ou garotas) e que ele está diretamente relacionado com a insegurança. O aprendizado da insegurança é uma das grandes armas que mantém as mulheres nesse ciclo eterno de submissão e controle.

Seja ela na ideia de que a gente só é tão boa quanto aparenta ser. Ou seja, de que a nossa vida depende da aparência física e da atenção que ganhamos (especialmente de homens). Ou na patacoada sem tamanho que alguns teóricos dizem que vem lá dos gregos (quando velho Aristóteles disse que as mulheres eram homens imperfeitos, deformados) de que somos uma categoria inferior de ser humano.

Por isso o caso de uma menina batendo na outra enquanto diz: “quero ver alguém te desejar agora” é uma das pontas, mas a outra, bem mais comum, é o vício de competir com as colegas. Quantas vezes tu já notou que estava competindo com alguém que nem conhecia (ou, pior, com alguém que gostava), apenas por serem, ambas, mulheres? Como se não existisse espaço suficiente pras duas no mundo, saca?

(spoiler: tem e sobra)

vilã

Muitas vezes a competição entre mulheres, longe de ser parte da natureza feminina, é uma forma de tentar se humanizar em um mundo que desumaniza as mulheres. De se colocar acima dessa casta inferior.

O negócio é que não somos uma casta inferior e não será desumanizando ainda mais as colegas que conseguiremos viver num mundo que reconhece nossa igualdade. Inclusive a Clara já falou lindamente sobre isso no post Mulher de verdade, onde explica que viver e acreditar nessa construção não é bom para ninguém:

Todas somos de verdade. Todinhas. Cada uma com suas particularidades de existência e contextos, cada um do seu jeito, mas todas somos.

Não tou dizendo que tu é uma pessoa horrível por fazer/pensar isso, não. Tou só dizendo que somos constantemente lembradas da nossa imperfeição e limitação. Seja nas capas de revista com corpos perfeitos e inatingíveis, nos ideais (cada vez mais inatingíveis) de como uma mulher deve ser no trabalho, no amor, no que for. E sabe quem é melhor que nós? A outra mulher. Ela quer nos roubar o marido, ela é mais bonita, seja como ela, veja dicas para amar melhor.

Mas: chega disso.

mulheres unidas

E digo isso assumindo que não fui sempre assim. Mas também digo isso sabendo que a melhor coisa que me aconteceu nos últimos anos foi fazer mais amigas. Confiar e respeitar e amar mais mulheres. Nunca me senti tão confortável comigo nesse mundo, tão pouco insegura e sozinha. Mesmo que todas nós (como qualquer pessoa criada nessa cultura) ainda tenhamos que lutar contra alguns impulsos misóginos que parecem naturais (não são), estamos ali: nos amando e protegendo e crescendo juntas.

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