Na quinta-feira, dia 20 de outubro, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, aconteceu a cerimônia de entrega do Prêmio Para Mulheres na Ciência, uma parceria da L’Oréal, com a UNESCO e a Academia Brasileira de Ciências. Sete cientistas brasileiras foram selecionadas entre as mais de quatrocentas inscritas em 2016. Da Astronomia, à Medicina, as cientistas receberão 50 mil reais para manter seus trabalhos e pesquisas.

Premiação

O L’Oréal-UNESCO For Women in Science é o primeiro programa dedicado às mulheres cientistas do mundo e no Brasil é a única iniciativa do gênero. Fundado em 1998 ele carrega a convicção de que o mundo precisa de mais mulheres cientistas, pois o mundo em si precisa da ciência e a ciência precisa de mais mulheres produzindo, pesquisando e sendo reconhecidas por seus trabalhos já que ainda somos minoria na área (cerca de 30% dos cientistas do mundo são mulheres).

O programa reconhece e incentiva que estas pesquisadoras possam levar à frente seus trabalhos e também oferece bolsas de estudos por meio de premiações locais para promissoras pesquisadoras. São 18 anos de enaltecimento mundial às cientistas, presente em 115 países e que precisam lidar com muitas barreiras na carreira como o machismo de orientadores e colegas, falta de financiamento e renovação dos mesmos, problemas de ranking por saírem de licença-maternidade, entre outras.

Até hoje o prêmio distribuiu o equivalente a 3,5 milhões de reais entre 75 mulheres promissoras cientistas, que receberam um impulso extra para prosseguirem em seus estudos e incrementar o desenvolvimento da ciência no país.

Os critérios

Os trabalhos são avaliados por uma comissão julgadora formada por renomados profissionais das áreas científicas que têm a difícil tarefa de escolher apenas 7 trabalhos. As vencedoras são selecionadas pela qualidade de seus currículos e pelo potencial de suas pesquisas, desenvolvidas em instituições brasileiras. Como prêmio, cada uma receberá uma bolsa-auxílio de R$ 50 mil, para dar prosseguimento às pesquisas. Foram mais de 400 projetos inscritos.

As vencedoras

As sete cientistas falaram sobre a surpresa e satisfação ao receberem a notícia do prêmio. Impulsionadas, muitas vezes, por ganhadoras de anos anteriores, elas sentem que colegas e alunos passaram a vê-las sob um novo olhar, tanto de admiração como de espelhamento, o que também é uma grande responsabilidade. Não apenas foram reconhecidas por seu trabalho e suas pesquisas, elas também são reconhecidas por alunos e alunas, algumas delas admitindo que se inspiram em seus trabalhos para prosseguirem na carreira científica. Muitas vezes as vencedoras atuam em meios predominantemente masculinos e veem no prêmio uma forma de provar que não apenas possuem o conhecimento e a técnica como podem ser o que bem quiserem e que podem chefiar equipes e instituições. Ainda assim, na Academia Brasileira de Ciência, por exemplo, só 13,5% dos membros são mulheres.

Normalmente quando a mulher está em um momento importante da carreira, é também o momento de ter filhos. E isso precisa ser aceito como algo natural, pois a ciência precisa de mulheres, e elas podem se tornar mães e continuar sendo pesquisadoras como eu.

Adriana Neumann de Oliveira – UFRGS

As pesquisadoras também esperam que a premiação possa aproximar academia de sociedade, que muitas vezes não conhece ou compreende o que é feito nos institutos de pesquisa. Ter uma empresa do porte da L’Oréal fomentando a ciência nacional, com um nome de peso nos lares de tantas gente, pode fazer com que mais pessoas se interessem pela pesquisa. Muitos ignora o fato que, por trás dos cosméticos que consumimos, também há pesquisa e desenvolvimento da parte privada.

No Brasil, o financiamento de pesquisa é quase que na sua totalidade feito pelo setor público, através de agências de fomento. O prêmio pode vir a ser um incentivo ao setor privado de reconhecer os feitos da ciência brasileira e, assim, apoiá-la, principalmente com recursos financeiros.

 

Matemática

Dra. Adriana Neumann de Oliveira
Departamento de Matemática Pura e Aplicada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Graduação em Matemática pela Univ. Fed. de Pelotas, mestrado e doutorado na mesma área pela UFRGS e pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA)
Baseada no princípio de que a teoria é essencial para a aplicação prática da matemática, Adriana lidera um projeto que estuda o comportamento coletivo das moléculas de um sistema físico, no qual se movem de um reservatório para o outro, através de um modelo matemático que interpreta essas moléculas como partículas que interagem entre si, segundo uma regra probabilística. O estudo é importante para compreender o comportamento de gases e fluídos.

 

Medicina

Dra. Claudia Kimie Suemoto
Departamento de Clínica Médica/Geriatria da Fac. de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)

Graduação em Medicina pela USP, Doutorado em Ciências (2010) pela mesma instituição, junto ao Departamento de Patologia, mestrado em Epidemiologia e pós-doutorado pela Harvard School of Public Health.
Seu trabalho visa tentar compreender os fatores de risco da demência. Hoje a demência é uma das dez principais causas de mortalidade e morbidade no mundo, sendo que é uma doença sem cura nem prevenção. Com a maior coleção de encéfalos do Brasil, o estudo foca em casos de doença de Alzheimer e demência vascular e investiga se o entupimento das artérias carótidas e coronárias por placas de gordura podem propiciar o desenvolvimento da enfermidade.

 

Biomedicina

Dra. Denise Morais da Fonseca
Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP)

Graduada em Ciências Biológicas pela UNESP, mestrado e doutorado pela Fac. de Medicina da USP em Ribeirão Preto com pós-doutorado na mesma área e no Institute of Parasitic Diseases – National Institude of Health (EUA).
Constantemente as pessoas estão sujeitas a infecções agudas, especialmente em regiões mais expostas ao ambiente, como a mucosa intestinal. A maior parte dos casos são facilmente curáveis, mas ainda não se sabe quais são as implicações disso a longo prazo. Infecções como essa podem deixar uma ‘cicatriz imunológica’ que passaria a reagir com a flora intestinal residente, levando a inflamações crônicas e predisposição a outras doenças, em especial metabólicas como diabetes, obesidade, até doenças cardiovasculares.

 

Química

Dra. Elisama Vieira dos Santos
Escola de Ciências e Tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Graduada em Química pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com mestrado em Eletroquímica e Química Ambiental Aplicada e doutorado sanduíche em Química pela UFRN e pela Universidad de Castilla-La Mancha, na Espanha
Indústria, mineração e agricultura costumam descartar seus resíduos de maneira inadequada, poluindo solos e corpos d’água. Usando da tecnologia eletroquímica, Elisama estuda como tornar a descontaminação de solos e água mais barata, através da energia elétrica e renovável, como energia solar e eólica. Barateando os custos, a ciência pode sair do laboratório e assim ser empregada em larga escala.

 

Biologia

Dra. Fernanda de Pinho Werneck
Programa de Coleções Científicas Biológicas/Coordenação de Biodiversidade do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)

Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade de Brasília (UNB), com mestrado em Ecologia pela mesma instituição. Doutorado em Biologia Integrativa pela Brigham Young University (EUA).
As mudanças climáticas globais causarão efeitos na vida animal, mas é incerto o nível de resistência das espécies para que sobrevivam. No caso dos répteis, Fernanda quer identificar os riscos de extinção e a capacidade adaptativa de lagartos da Amazônia e do Cerrado, os dois maiores biomas da América do Sul. A velocidade com que as mudanças estão acontecendo impede que as espécies se adaptem a tempo.

 

Astronomia

Dra. Ana Leonor Chies Santiago Santos
Departamento de Astronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Graduada em Física com mestrado na mesma área pela UFRGS, doutorado pela Universiteit Utrecht (Holanda). Pós-doutorado na University of Nottingham (Inglaterra) e no Instituto de Astronomia e Geofísica da USP
Com experiência nas área de Física e Astronomia, com ênfase em Astrofísica Extragaláctica, Ana trabalha com evolução de galáxias, concentrando seus estudos em aglomerados globulares (estrelas unidas pela gravidade), utilizando dados de telescópios de última geração. Ana também mede a metalicidade, idade e os componentes estelares das galáxias a fim de obter conhecimento do universo primordial.

 

Farmácia

Dra. Gabriela Trevisan dos Santos
Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)

Graduada em Farmácia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), mestrado e doutorado em Bioquímica Toxicológica pela mesma instituição e pela Universidade de Florença, com pós-doutorado na Universidade do Arizona
Incentivada pela doença da mãe, que sofre de esclerose múltipla, Gabriela se empenha em buscar um tratamento que controle as dores causadas pela patologia, em geral na cabeça e nas extremidades. A dor é incapacitante, prejudicando a qualidade de vida e atividades cotidianas. Dessa forma, Gabriela busca desenvolver um analgésico que bloqueie a ação de uma proteína encontrada no sistema nervoso que desencadeia o quadro doloroso.

 

Que mais mulheres se inspirem a seguir a carreira acadêmica, a fazer pesquisa e a que sirvam de exemplo para jovens que estão entrando na universidade. A ciência precisa de mulheres; lugar de mulher é onde ela quiser!

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