Quando falamos em questionar ideais românticos não quer dizer que estamos questionando a existência do afeto, em si, mas das construções que acabamos achando natural agregar aos sentimentos. Sentir ciúmes é uma delas.

A maioria de nós experiencia um ou outro grau de ciúmes, mas isso não quer dizer que eles todos sejam a mesma coisa, o mesmo sentimento. Nem que ciúme seja uma coisa que está, inevitavelmente, colada ao amor.

Seria, no mínimo, tonto comparar o ciúme de um misógino que acredita que a mulher é sua propriedade com o ciúme que a maioria de nós sente. O ciúme misógino está mais para o ódio do que para o amor. Ele tortura e mata. O ciúme que a maioria de nós sente pode ter relação com nossas vivências anteriores ou com o próprio relacionamento.

E, as vezes, o ciúme é só um sinal de humanidade.

apenas humanosNão me julga, eu sou apenas humana

Esses dias estava lendo um texto sobre poliamor que dizia que o ciúme não deve ser negado. A ideia do texto era que ao reconhecer, assumir e tentar entender esse sentimento nos tornamos mais capazes de identificar as problemáticas mais profundas que carregamos e que nos levam à sentir assim:

Aborde o ciúme não como uma coisa horrível, mas como um presente de auto-consciência.

E isso, para as mulheres, pode ser especialmente libertador.

Primeiro porque crescemos sendo bombardeadas com ideais românticos destrutivos que associam insegurança e mal estar com amor (sim, estou falando contigo, 50 Tons de Cinza). Segundo porque não importa se pela monogamia ou pela poliafetividade, a maioria de nós já tentou debater, tratar e entender seus ciúmes e inseguranças e os viu associados com loucura. O mito da mulher louca, transtornada, possessiva, que não sabe lidar com seus sentimentos é uma resposta tão recorrente que as vezes achamos que somos, mesmo, essa pessoa.

Associar as manifestações femininas (as boas e as nem tão boas) com descontrole emocional é um recurso histórico machista que costura os relacionamentos solitários (especialmente em um contexto hetero). Quando o homem se priva de aprofundamentos, a mulher é a única responsável pelo relacionamento e pelas complexidades afetivas. E digo mais: tá cheio de homenzinho que adora esse tipo de estrutura, porque faz ele se sentir especial.

Por exemplo, “ela é louca por mim” poderia facilmente ser traduzido como: “ela me oferece afeto e eu ofereço para ela desdém (mas, ao mesmo tempo, preciso desse afeto que ela me dá, da confirmação que vem com ele, para viver e me reconhecer como um cara foda)”.

Particularmente eu acho que os ciúmes que a maioria de nós sente surge de duas coisas:

– uma construção afetiva (relacionamento) criada e mantida pelas partes envolvidas

– o medo de olhar em direção ao nosso abismo pessoal e descobrir de onde surgem as complexidades

amor-romanticoE se eu tiver uma ideia totalmente errada de como amor deve ser?

Então se tu tá num relacionamento onde tua insegurança é a lenha da fogueira do ego da outra pessoa, claro que tu vai ser incitada a sentir, cada vez mais, ciúmes. Mais de uma vez me relacionei com caras que se alimentavam das minhas inseguranças e ciúmes. E, sim, essa estrutura me fazia pensar que eu era uma maluca e evitar reconhecer meus sentimentos, simular que eles não estavam lá. Mas simular que nossos sentimentos não tem complexidades só os torna mais complexos.

Daí chegamos na parte onde nos encaramos e aceitamos que estamos sentindo o que estamos sentido. Pra mim a melhor abordagem em relação aos ciúmes e possíveis inseguranças do caminho tem sido: enxerga-las com olhar amoroso. Afinal, todos temos nossas fragilidades. Mas isso não quer dizer valorizar ou achar que afeto só existe com ciúme, insegurança e falta de ar de medo.

Até porque, pra mim, afeto é pra ser a parte boa da vida. O que nos deixa felizes. Pra ser a parte ruim já temos as contas todo mês.

Na real, Caetano Veloso explicou melhor que eu conseguiria:

Não vamos fuçar nossos defeitos
Cravar sobre o peito as unhas do rancor
Lutemos mas só pelo direito
Ao nosso estranho amor

(…)

Deixa o ciúme chegar
Deixa o ciúme passar
E sigamos juntos

Basicamente, se as pessoas que se relacionam não se comprometem, juntas, com o que estão vivendo, talvez seja melhor jogar truco que ter um relacionamento. Certamente será mais divertido.

Só que pra que role esse comprometimento, como disse minha amiga e guru, Bandarra, é preciso mais saúde mental e menos pensar só em si:

Então se tu sente ciúmes acho que minha dica é: olha pra ele, entende ele. Não como uma coisa que não vai mudar, mas como algo que tu pode aprender a lidar, desconstruir e que pode te ensinar muito sobre partes de quem tu é que tu prefere ignorar.

Ao menos comigo tem funcionado assim: ao reconhecer minhas fragilidades tenho me tornado bem mais forte e amorosa.

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