Vendo Amal e George Clooney no Golden Globe, ontem, não pude evitar de pensar no amor que é possível apenas para homens.

Convém notar que não tenho nada contra o George Clooney. Na real, eu sei tão pouco sobre ele que, na maior parte do tempo, nem lembro que existe. E digo isto de cara pra ninguém vir me falar o quanto ele é, na verdade, maravilhoso.

Ocorre que, desde o ano passado, não consigo evitar esse desconforto quando falam do casamento dele. E isso não tem relação nenhuma com o George e menos ainda com a (maravilhosa) Amal, mas com o tipo de amor que só os homens podem ter. Ontem até tuitei um comentário sarcástico sobre:

clooneys

E fiz isso pensando no fato de que alguns temas ainda são o calcanhar de Aquiles das mulheres. Sentimos constrangimento de sequer arranhar a superfície. E os amores que podemos e não podemos ter, certamente, estão entre eles. Até pelo papel que a ideia de amor representa no que é existir como mulher nesse mundo.

Mas vamos lá, tentando superar o trauma para lidar com o embaraço.

Quando George Clooney anunciou seu noivado foram necessárias jangadas para sobreviver ao tsunami de chorume que se seguiu. O problema estava nos paralelos horrendos entre ele e Jennifer Aniston, já que ambos anunciaram seu compromisso mais ou menos ao mesmo tempo. Eu nunca vou esquecer deste texto do Guardian: ele foi domado, ela foi salva.

Ocorre que ambos tem uma história afetiva similar. Tiveram um primeiro casamento apaixonado com colegas de profissão, passaram por traição e desilusão amorosa pública e, depois disso, ficaram anos tendo uma série de relacionamentos rápidos. A diferença é mínima (mas fundamental): ela é mulher.

Jennifer e Clooney passaram da idade de casar. Ela tem 45 anos, ele tem 53. Ambos são bem sucedidos, famosos e nunca tiveram filhos. No caso dela, parece que nunca quis (e isso, disseram os tablóides, costurou seu divórcio). Parece óbvio, então, que ela estivesse desesperada para casar e ele estivesse apenas vivendo sua vida.

Não.

Lendo tudo isso, do outro lado do monitor, estava eu que, aos 30 e poucos anos, finalmente entendia o preço de ser uma mulher adulta e solteira. Veja bem, sequer sou uma entusiasta da vida de solteira. Gosto dos afetos recíprocos que vivi e espero conhecer outra(s) pessoa(s) que sejam capazes de trocar no mesmo nível que eu. Mas isso eu não posso criar. Eu posso criar uma vida divertida, com atividades legais, amigos foda, trabalho revigorante e um site maravilhoso. Eu não posso criar uma pessoa. Inclusive to diboa (ver abaixo).

par ideal“Esse é meu noivo, gente!”

Mas, pelo medidor de deveres amorosos do mundo, aos 35 anos eu estou batendo no prazo de validade para o amor. E a Jennifer Aniston, aos 45, passou dele. Por esse mesmo medidor, quando Marília Gabriela se relacionou com Gianecchini, ele era um homem gay (et all). Claro! Mas o George Clooney, aos 53, foi abençoado com esse amor que salva.

Ontem, vendo o Red Carpet no E!, me deparei com o constrangimento causado por isso. O babaca do Ryan Seacrest (produtor da maioria dos reality shows e programas do E!) criou uma piadinha para o George Clooney. Uma piadinha sem graça e pouco polida, coisa de guri babão, mesmo.

vergonhaO tipo de babaca que chama aliança de algema se constrangendo ao vivo

Ele (e toda a equipe) estavam usando e expondo camisetas daquelas bem troxas, que vende no saldão. Nelas, um noivo triste e uma noiva sorridente ornam com os dizeres de Game Over. Eu fiquei tão constrangida que achei que estava exagerando. Então fui procurar o maravilhoso Yahoo! Respostas para entender o que essas camisetas queriam dizer:

A mulher na maioria das vezes sempre fica feliz com seu casamento,e o homem ali está triste porque agora que se casou,chega de farra todos os dias,bebedeira com os amigos,agora ele está em um compromisso mais sério não só em um namoro mas sim em um casamento,e os homens adoram ser livres e agora não,as suas mulheres vão mandar mais neles,e isso é uma espécie de jogo = antes no namoro,farreando mais,agora no casamento,sendo mandado.E game over é jogo perdido em português,ou seja=agora eu estou casado,pqp não vou poder fazer tudo o que eu queria com eu queria,tenho uma mulher !

O constrangimento não foi só meu e, além dos noivos, inúmeros tweets comentaram o fato, entre vergonha e asco.

Claro, essa patacoada do E! tá longe de ser o suficiente para anular um evento que foi maravilhosamente feminista e que mostrou algumas barreiras sendo rompidas, inclusive na sua cobertura. Mas também está longe de ser um evento isolado.

A voz que chama a Jennifer Aniston de bridezilla (uma noiva Godzilla desesperada para casar) ainda está lá e ainda espera que mulheres solteiras se sintam constrangidas (e que homens se sintam presos ao ter relacionamentos).

Mas, oh, pra mim ela não serve. E acho que passou da hora de começarmos a questionar esses estereotipos que fazem com que tantas de nós tentem se encaixar em modelos, a todo custo, sofrendo e passando vidas inteiras se sentindo deslocadas por uma obrigação sobre algo que sequer temos controle.

Nossa obrigação é conosco. E essa obrigação nós temos como administrar.

, , , , , , , , ,