Hoje apareceu na minha timeline um tweet fazendo piada com o discurso recorrente de: “existe algo mais lindo que um homem feminista?”.

Esse discurso pode parecer inocente, mas reafirma a não importância da mulher, o não protagonismo. Como se a grande conquista da luta das mulheres dissesse respeito aos homens (!?). Instantaneamente comecei a criar uma lista mental de coisas que eu acho mais bonitas que um homem feminista.

Gatos sonolentos

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Essa é a linda da Colores. Se em foto já é mais bonito que homem feminista, imagina ao vivo e fazendo purrr

Pernas de Ciclistas

pernas de ciclistasÉ uma preferência pessoal, mas pernas de ciclistas trazem histórias em si (em braile)

Sentimentos legais

amigas<3

Aquele jogo

oblivionÉ menos que amor e mais que tesão jogar aquele jogo que tu tava sonhando

E poderia continuar. Minha sobrinha é mais bonita que homem feminista, por exemplo. Ela é mais bonita quando chega para mim, aos seis anos, e me explica como surgiu o dia da mulher, pois aprendeu na escola. A escola, que agora ensina como surgiu o dia da mulher, é mais bonita que um homem feminista.

E feminismo é isso. Uma conquista cotidiana do lugar que, essencialmente, pertence às mulheres. Do lugar onde cada uma de nós chega procurando se reconstruir ou se tornar quem é. Essa pessoa que, muitas vezes, ansiamos mas nunca tivemos a oportunidade de ser, pois não é coisa de mocinha.

Esse lugar ensina, basicamente, que merecemos um lugar. E a importância de centralizarmos o debate não é só técnica (pois apenas nós vivemos isso), ela é prática, pois fala de onde queremos chegar e do que nos impede de chegar lá.

E vou citar um exemplo bem bobinho e cotidiano: mulheres maravilhosas com parceiros que, bem, não são exatamente feministas. E aí pode parecer que a grande libertação seria fazer com que todos os homens tivessem acesso ao feminismo. Ou apenas aquele. Isso já mudaria a vida dela, certamente.

Mas não. O feminismo nas mãos de um homem esforçado e bem intencionado é, no máximo, uma luta de imediatismo, que se conforma em tratar os sintomas. Só uma mulher vê o feminismo como uma questão de sobrevivência, adaptação e evolução. Como disse a Laurie Penny:

Feminismo não é um conjunto de regras. Não é sobre tirar direitos dos homens, como se existisse uma quantidade pré determinada e finita de liberdade no mundo. Existe uma abundância de liberdade para se ter se tivermos coragem de demandar para todo mundo. Feminismo é uma revolução social e sexual e feminismo não está, de maneira alguma, satisfeito com a posição papai-mamãe. É sobre trabalho e amor e como um depende tanto do outro. Feminismo é sobre se fazer perguntas e se importar o suficiente para fazê-las quando elas se tornam desconfortáveis.

E apenas uma mulher sabe o quanto é desconfortável ser e se colocar como feminista em um mundo machista. E a desgraça de viver uma existência que é compulsoriamente ativista, pois às vezes só queremos existir. E como a vida seria infinitamente mais confortável e miserável sem o feminismo.

É bem óbvio que eu não quero, aqui, desmerecer. Não vou nem falar dos dois novos fenômenos que podemos notar, que são os caras que tem um discurso alinhado com o meu, mas uma prática alinhada com a dos pais e os coitados que fazem isso pra pegar alguém (ZzZzzZZzz). Tou falando dos poucos caras que vejo vivendo esse embate entre seus privilégios e a tentativa de reconhecer e respeitar o outro – as mina. Eu, por essência, valorizo toda e qualquer iniciativa que faz com que nos coloquemos no lugar da coleguinha ou do coleguinha. Estou certa de que empatia pode mudar o mundo. Mas, como disse Cornell West:

Empatia é mais que tentar imaginar o que os outros estão passando. Empatia é ter a disposição de reunir coragem o suficiente para fazer algo sobre isso.

Esses caras, capazes de se questionar e tentar rupturas, nós queremos conosco, sem dúvida nenhuma. Mas por mais maravilhosos que eles sejam, a casa ainda é nossa. E a maior conquista de todo discurso feminista (concorde ou não com o meu, seja ele qual for) é sempre a mulher que começa a se ver como alguém que não é mais coadjuvante.

Por isso falamos em protagonismo. E isso, às vezes, faz o feminismo parecer ainda mais difícil e solitário. Não estamos acostumadas a ser protagonistas na nossa própria vida, fomos ensinadas a nos devotar, a viver para alguém que é sempre mais importante e merecedor. É o que a Penny chama de branding da feminilidade, que nos permite a liberdade do trabalho, beleza, romance, casamento, filhos. Mas que, como eu vejo, não ousa nos tirar do papel de coadjuvantes. Essa ousadia é apenas nossa. E não teria como ser diferente.

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