Outro dia minha roommate sugeriu que fossemos fazer compras na Zara. Eu peso 150kg.

Nessa hora eu percebi que ela não tem a menor ideia de como é ser gorda. Sim, ela sabe que eu sou gorda, mas não sabe o que isso implica. Então resolvi dar uma explicadinha sobre como é a vida de uma pessoa gorda.

Quando eu morava em Londres, ia sempre num shopping gigantesco perto de casa. Dizem que é o maior da Europa, 334 lojas. Sabe quantas dessas 334 lojas vão até minha numeração? 4. Isso mesmo. No maior shopping da Europa, sou bem-vinda em apenas 4 lojas. Nas outras 330 eu posso tentar me enfiar em uma ou outra peça, mas realmente prontas pra me atender, apenas 4. E não, nenhuma dessas 4 é a Zara.

Não deixo de ir à praia ou usar biquíni, mas sabe por que eu nunca peço cadeira e sempre prefiro sentar na canga? Porque minha bunda não cabe em nenhuma cadeira.

Falando nisso, quando penso em escolher algum bar para tomarmos um chopp, tento lembrar como são as cadeiras do lugar. Cadeiras com braços vão me machucar a noite toda, cadeiras brancas de plástico podem quebrar a qualquer momento. Com o tempo, desenvolvi uma técnica para me sentir mais segura em cadeiras potencialmente perigosas: sento inclinadinha pra frente, jogos as pernas cruzadas pra trás e uso-as como apoio. Caso a cadeira quebre, esse apoio das pernas impede que eu me esborrache no chão. Sim, passo a noite usando as pernas de alavanca. Não, nem quando fico extremamente bêbada esqueço dessa preocupação.

E se enquanto eu estou ali tomando meu choppinho aparece um cara pra puxar papo comigo? Sempre dou uma olhada em volta para conferir se não tem um grupo de amigos dele assistindo de longe e rindo, vendo se ele está mesmo cumprindo a aposta de ir falar com a gorda. Acontece mais do que você imagina.

Daí o cara não veio falar comigo só por uma aposta cruel, tá a fim mesmo. Também acontece. Conversamos, levo ele pra casa, transamos. No dia seguinte, mesmo tendo usado camisinha, acordo com umas coceiras meio estranhas e resolvo ir ao médico. Chegando lá, o médico provavelmente nem vai ouvir o que tenho a dizer e vai apenas me entregar uma folhinha de dieta. Meus sintomas não interessam, a possível gonorreia vai passar se eu apenas emagrecer.

Saio do médico morrendo de fome pois estava em jejum por causa dos exames de sangue. Gostaria de comer alguma coisa antes de voltar para casa, mas preciso avaliar se vale o esforço de comer em público sozinha, porque provavelmente escutarei algum desaforo. Se pedir uma coxinha, alguém vai passar por mim e sussurrar “é por isso que tá desse tamanho”. Se estiver calor e resolver tomar um sorvete, alguém pode me segurar pelo braço e dizer “cuidado, vai ficar ainda mais gorda”. Já ouvi isso mais de uma vez.

Eu poderia continuar, mas acho que está ficando triste, e essa não era minha intenção. Eu não sou uma pessoa triste, eu me amo do jeitinho maravilhoso que sou, mas mesmo que uma gorda seja a ganhadora do Prêmio Nobel da Autoestima, essas coisas continuam sendo uma realidade.

Ah, mas então por que você não emagrece e para de passar por isso?

Meu amigo, porque não há nada de errado comigo. Não tenho que me  encolher para caber no mundo, o mundo que precisa parar de tentar me diminuir.

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