Eu não namoro e foi meu namoro que me mostrou isso. Escrevo este texto não para me gabar, pois o processo possui, como tudo, suas falhas e fraquezas.

Escrevo para poder sugerir às pessoas que constantemente se vêem machucadas e desoladas diante de relacionamentos perturbados, àquelas que não conseguem se sentir confortáveis com a posse, o ciúme, a cobrança da maioria das relações, que há alternativas. Eu gostaria de ter lido um texto desse antes de passar por namoros em que não me encaixava (porém se eu não tivesse passado por eles talvez não compreendesse as possibilidades que aqui apresento).

Também tentei escrever de forma a isentar do assunto o imenso machismo da nossa sociedade, que é responsável por grande parte do moralismo e da monogamia feminina. O texto vale pra todo tipo de casal.

O TAL AMOR ROMÂNTICO E A CO-DEPENDÊNCIA

amor-romantico(Ou, “quando nós percebemos que somos duas pessoas, autônomas e diferentes”)

Quando crescemos aprendemos através dos filmes, livros, séries, pais e tios, que um namoro é de uma certa forma padrão: um casal, uma promessa de amor eterno, um voto de fidelidade… E qualquer coisa fora desse padrão é vista como uma prova de que não era amor de verdade.

No entanto, vemos incontáveis e persistentes finais de relacionamento devido às quebras destes padrões e pouca gente tenta ou vê a possibilidade de agir fora deles. Envolve, além de vontade e coragem, um pouco de rebeldia e um certo desapego com o que chamam de ‘correto’ apenas por ser o tradicional.

Primeiramente (fora Temer) preciso explicar que, como quase toda mulher, passei por relacionamentos abusivos na vida, por namoros controladores, por brigas colossais pelo ciúme e, para tentar fugir disso, por um bom período solteira. Todas minhas experiências me fizeram perder a fé no amor romântico, e ao mesmo tempo idealizar um par ideal. Todas as minhas experiências, e de amigas, me comprovaram cada vez mais que o nosso maior sofrimento é buscar e desejar o par ideal, a tampa da panela, a cara metade, a alma gêmea -e que em 99,9% dos casos não existe.

Os pilares do relacionamento comum são quase sempre os mesmos, girando em torno de uma falsa segurança na monogamia, um controle da liberdade e uma promessa de amor infinito.
Assim, para lidar melhor com tudo isso, eu sugiro sempre desconstruir a crença de que uma pessoa só é completa quando tem sua cara metade. Isso é a mais pura mentira, e de extrema nocividade. Acredito que todo ser humano é completo em si e deve encontrar a felicidade em plenitude única e exclusiva consigo mesmo. A partir do instante em que você é capaz de ser feliz sozinho, possivelmente, você permitirá que seus relacionamentos sejam mais saudáveis e terá menor dependência emocional da outra pessoa.

Um relacionamento no qual uma pessoa PRECISA da outra para ser feliz, para se manter mentalmente saudável, para se sentir bem ÚNICA e EXCLUSIVAMENTE por conta da tal cara metade, não consigo ver como um relacionamento saudável. Invariavelmente essa co-dependência irá tornar uma pessoa refém da presença e aprovação da outra, constantemente esperando o aval do parceiro ou parceira para tomar qualquer decisão ou rumo, independentemente de como isso irá interferir na vida do casal. Por exemplo, sair com amigos, marcar uma viagem sozinho, aceitar um emprego em outro local ou horário, ou jantar sozinho. Toda pessoa deve ser livre para tomar suas decisões a respeito da sua própria vida. Estar num relacionamento nos faz levar em conta a opinião da outra pessoa e isso é natural, porém ninguém deve se sentir pressionado a deixar de fazer algo bom para si porque a outra pessoa não quer. O objetivo é a felicidade e a liberdade de escolha.

Quando passei a acreditar que ser feliz sozinho é um grande passo para poder ser feliz acompanhado, não depositei mais na conta da outra pessoa a responsabilidade de minha felicidade, afastando o grande medo da solidão, o medo do desapego, o medo do abandono. Ser feliz sozinho é aprender a se amar. Schoppenhauer uma vez disse “Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade.” Essa frase me fez pensar, e o que procuro pra vida é essa liberdade e essa completude, porém acompanhada!

Pude compreender que uma pessoa que não necessita de outra para ser feliz pode ver que a monogamia e a exclusividade são sistemas falhos, que não trazem segurança e muito menos comprovam o amor e a realização de um casal. (Alex Castro escreveu um texto ótimo e elucidativo sobre a Prisão Monogamia, para quem quiser se aprofundar mais no assunto, recomendo a leitura. http://papodehomem.com.br/a-monogamia-e-uma-prisao/).

Sem entrar no mérito da não-monogamia, vamos para o senso comum novamente. Pegue um casal que se ama e está junto e que tem como base o amor, o respeito e a confiança. Esse amor que será eterno, esse amor que move montanhas. Se o amor é tão grande, tão importante, tão profundo e belo, me diga como que uma demonstração de carinho e prazer (como um beijo, uma transa ou uma amizade com outra pessoa), pode destruir isso tudo tão rápido? Será que eles não estão sendo um pouco egoístas?

O beijo, o sexo, o carinho, são ferramentas que trazem prazer. E o prazer traz felicidade, afaga a auto estima e não precisa, necessariamente, se transformar numa relação profunda.

Também acredito que se sentir atraído por alguém, sentir interesse sexual ou emocional por alguém, é natural. É um sentimento humano. Apaixonar-se, relacionar-se, flertar, deixa as pessoas felizes. Elas se sentem bem, bonitas, saudáveis, radiantes. É gostoso e todos sabemos como é bom.

Quando solteira, quantas vezes a gente já se relacionou sem se comprometer? O desejo e interesse não necessariamente têm que estar ligados ao amor, não é?

Sendo assim, não creio que estando num relacionamento profundo com alguém, o simples fato de saciar um desejo sexual colocaria em xeque a relação. Quão frágil seria esse relacionamento para que um beijo, uma transa ou um flerte com outra pessoa jogue fora todo o sentimento profundo, toda a paixão e amor que sentem um pelo outro?

E ainda estou falando apenas de prazer, de carinho, de flertes superficiais.

Pois então, isso leva a outra desconstrução de crença: a certeza da segurança. Muita gente acredita que a exclusividade traz segurança. Saber que seu parceiro não flertará, beijará ou transará com outra pessoa te dá a segurança de que ele nunca vai te deixar, certo? De que ele nunca vai se apaixonar por outra pessoa, pois não procurou isso, certo? Acho isso uma enorme mentira. Já vi tantos relacionamentos sérios terminarem por um caso que depois não deu em nada, ou que nem tinha intenção dar em algo. Quantas vezes vemos as pessoas se apaixonarem e logo depois perceberem que não era bem isso? Quantas vezes não idealizamos uma pessoa e ela não é nada do que imaginávamos?

A IDEALIZAÇÃO DO INALCANÇÁVEL

idealizacao(ou “quando notamos que não precisamos passar vontade”)

Perguntei pra vários amigos sobre os maiores medos que os fazem não querer ter um relacionamento livre. Quase unanimemente falaram do medo de que o parceiro conheça alguém e se apaixone, terminando por trocar uma pessoa por outra.

Eu acredito que ninguém é totalmente imune a isso, ainda mais numa era onde conhecemos pessoas novas todos os dias, pessoalmente e virtualmente. Então, se a pessoa tem um desejo e não pode saciá-lo acaba por reprimi-lo, e assim poderá se tornar infeliz. A repressão do desejo a fará comparar o seu parceiro com o objeto de interesse idealizando a pessoa desejada, transformando-a num tesouro inalcançável. E essa idealização poderá ser muito nociva para a estrutura de um relacionamento exclusivo.

Principalmente se a pessoa terminar seu relacionamento, porque decidiu saciar um desejo, e notar que ‘não valeu a pena’ (pois ao conhecer a outra pessoa a paixão pode sumir, pode-se descobrir que não era o que imaginava, pode não dar em nada, e pode inclusive não passar de um afago superficial). E isso trará dor de ter trocado o certo pelo incerto, o amor pelo tesão.

O que acaba acontecendo é a mentira, a omissão, a traição. O interessado vai atrás de saciar seu desejo às escuras plantado uma mentira no casal, que trará a desconfiança e inevitavelmente a dor.

Acho que se o casal compreender que um desejo pode ser saciado quando lhe convém, as chances de uma pessoa ser idealizada são muito menores. O interesse é saciado e o casal permanece unido, muitas vezes até mais do que era, pois se privilegia da felicidade, do aumento da auto estima, de ver que o outro está satisfeito e feliz. Ora, o amor e a felicidade não são o objetivo?

Ouso acreditar que será mais seguro um casal com relacionamento ‘aberto’ passar anos juntos e felizes do que um casal que reprimiu todo e qualquer desejo e interesse de fora.

Após compreender tudo isso e ver claramente como isso funcionou para mim, eu pude não só querer me libertar do apego irracional e do meu ciúme, como dar força pra minha liberdade ao tentar ser inteira e agir da mesma forma que eu agiria se estivesse sozinha ao me interessar por alguém. E isso levou a outra fase: apaixonar-se.

A PAIXÃO PODE EXISTIR EM MAIS DE UM LUGAR

paixao-tina(ou “quando eu me apaixonei e nós decidimos que valia a pena seguir em frente”)

Inevitavelmente nessa jornada de ser nós mesmos por inteiro e não passar vontade, aconteceu que eu me apaixonei por um desses rapazes (exatamente o medo que meus amigos dizem ter), fazendo eu me sentir feliz, viva, mais bonita, mais atraente e animada. Sentei com meu companheiro e expliquei que aquele ‘só vou ficar com ele porque acho esse cara muito interessante e bonito’ acabou virando motivo pra eu querer conhecer ele melhor e não parar. Já havíamos conversado que se isso acontecesse em algum momento iríamos analisar a situação e, talvez, deixássemos acontecer, pois queremos ser felizes acima de tudo. Seria uma vitória caminhar para a possibilidade de ter mais de um relacionamento. Principalmente ao se envolver com pessoas completamente diferentes, de forma que cada um pudesse se sentir feliz e completo em seus respectivos papéis, sem interferir no espaço tomado pelo outro em nossas vidas.

A atitude que tomamos foi essa, mas o caso não foi adiante. Isso aconteceu duas vezes e não duvido que continue a acontecer, mas a cada passo é uma descoberta, uma nova sensação, um novo acordo. E essa abertura ao diálogo, ao respeito e completa cumplicidade me fez simplesmente me apaixonar completamente pelo meu companheiro, pela pessoa incrível que ele cada dia se mostrou ser.

Em nenhum momento pensei em ‘trocar’ uma pessoa pela outra, pois eles eram completamente diferentes e o amor que eu sentia pelo meu companheiro não mudava absolutamente nada cada dia que eu conhecia melhor o novo amigo. E assim pude me sentir amparada pelo amor que sentia por ele, e pelo respeito que mantivemos durante todo o processo.

O DIÁLOGO, OS ACORDOS E A LEALDADE

lealdade(ou “quando descobrimos o real significado da palavra ‘aberto’”)

“Traição” pode ser definida como trair a confiança no outro. Por isso, sempre achei essencial que um casal tenha claro o que espera da relação, ter clareza com o que cada um sente e o que dói em cada um. Sabendo exatamente o que machucaria o outro, fica muito mais fácil amar sem preocupações, amar livremente, amar sabendo que será respeitado.

Com o diálogo e a abertura para falar seus medos e receios, nós nos abrimos, nos expomos e deixamos bem claro onde está a dor em cada um de nós. Pudemos aprender que o amor mora em respeitar a dor do outro. Você não toca no lugar que você sabe que vai machucar o seu amor.

Porém nem tudo na vida é preto e branco e sentimentos são, sim, constantemente mutáveis. Nós tivemos que refazer nossos acordos várias vezes, por entender que todos mudamos e que todos temos o direito de mudar, deixando o diálogo ainda mais importante. É importante saber dizer “eu não sei o que sinto”, “eu não sei o que isso significa ainda”, “eu não sei como irei me sentir”. Assim como é importante respeitar o ‘não’.

O ‘não’ não é uma porta fechada, ou uma proibição, porém. O ‘não’ é um pedido a ser dialogado e ponderado. ‘Por favor, com ela não”, ‘por favor, assim não’ (mas sempre com algum embasamento, porque acredito que o ciúme irracional é problema a ser lidado individualmente, é um caso de auto estima e insegurança).

Isso tudo pra dizer que relacionamentos são acordos — seja de amizade, profissional ou amoroso. Ao se unir e caminhar ao lado de alguém, o diálogo traz acordos entre os envolvidos.

O importante é que estes acordos sejam sempre, sempre, abertos para mudanças e previamente conversados, senão ele perde o sentido ao virar apenas uma jaula, um cárcere. Acho importante estarmos preparados para dialogar e ouvir coisas como “escute, estou com dúvidas a respeito do que combinamos, podemos tentar dessa vez diferente?”, “sabe, acho que prefiro que seja diferente de agora em diante”, “acho que podemos tentar ousar um pouco mais agora”, “fica aqui”…

Isso tudo pode soar estranho demais, principalmente para quem vive relacionamentos com desconfianças e falta de diálogo. Comecei a acreditar que o termo ‘aberto’ não significa uma ‘porta aberta’ onde todos podem entrar e, sim, aberto no sentido de ‘clareza’, de transparência, como um livro aberto que os dois podem ler.

A sinceridade com o parceiro e com seus próprios sentimentos é crucial. Poder dizer o que sente, o que não sente e também poder admitir que não sabe exatamente como se sente é uma chave de ouro para a plena confiança. Admitir que está confuso, poder confiar. E com confiança há segurança. Confiando que nós podemos nos falar, nos abrir, temos a segurança de que não haverá traição. A cada dia nós nos redescobrimos, aprendemos a sermos completos e progredir num modelo que acreditamos ser ideal. Há segurança de que um olhará pela dor do outro, desejando sua alegria e individualidade, cuidando-se e respeitando-se.

Imagino que ainda vou adicionar novos capítulos a esse texto, conforme vou aprendendo e vivendo essa experiência e, realmente, espero que ao compartilhá-la eu possa elucidar algumas inseguranças de pessoas que desejam se aventurar assim. Acredito numa transformação mundial das relações humanas, que cada vez mais podemos dialogar e manifestar nossas incompatibilidades com o sistema conservador, monogamico e machista. Podemos cada vez mais nos respeitar e amar, sem a posse, sem a guia curta, sem apagar a luz que cada um carrega dentro de si.

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