Alguns anos atrás, logo depois de ver o filme “Coco antes de Chanel”, me peguei pensando sobre os prismas trágicos da maior parte das mulheres foda que eu admirava. E uma coisa unia todas elas: a solidão como uma imposição por estar fora de uma delimitação do que se pode fazer como mulher.

Nós estamos cansadas de saber que a história das mulheres como grupo é costurada por violência e abandono e que nossas conquistas, mesmo as mais básicas, são super recentes. Então óbvio que ser uma mulher pobre que vira uma estilista muito bem sucedida, capaz de redefinir a moda e o comportamento feminino não tem como ter sido uma trajetória fácil. Mas o que eu não parei para pensar naquele momento, e em tantos outros, é que isso não é necessariamente um sinônimo de tragédia, existe superação, existem amizades, existe beleza além do “esperado”.

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Claro, eu também cresci em um mundo que diz que as mulheres são delicadas e a felicidade só tem um modelo, e ele é casar e ter filhos e envelhecer juntos. Mas sendo uma mulher que, desde muito cedo, foi incapaz de fazer a maior parte das coisas que “deveria” fazer para se encaixar nesses modelos e ser quem eu “deveria” ser, isso acabou se tornando uma imposição muito cruel.

Basicamente meus interesses eram outros. A maior parte da minha vida como jovem e adulta eu nem cogitei coisas feito “ficar bonita”, “arranjar marido”, “cuidar da casa da família cozinhar”. Eu queria ler, debater, pensar. E muitas pessoas me diziam que isso era uma “opção por solidão”. Mas eu não queria, necessariamente, ficar sozinha. Adoro ter amigos e parceiros com quem dividir as coisas que considero importantes na vida, só nunca quis ter que trocar de personalidade para isso.

E, com o passar dos anos, fui notando que cada vez mais amigas minhas tinham a mesma ideia que eu: a vida de uma mulher que não quer abrir mão de si é necessariamente difícil e, portanto, o final é cruel e solitário.

Nos últimos anos, porém, mudei um pouco minha visão sobre isso tudo. Comecei notando que sempre questionei os ideais românticos, ainda que não questione o afeto ou as manifestações de afeto. Então, se nunca acreditei em “alma gêmea” ou que só podemos ser felizes “encontrando o amor”, por que continuava acreditando que uma velhice sem isso era algo trágico?

Eu realmente não conseguia entender.

Até que vi a primeira temporada de Grace e Frankie e me dei conta que passei a vida toda consumindo um só discurso, mas as possibilidades são infinitas. E talvez seja por isso que, surpreendentemente, o seriado tenha feito tanto sucesso entre mulheres jovens (bem mais jovens que eu, inclusive): ele nos ajuda a ver que a vida e o afeto podem ser bem maiores do que nos ensinaram. Ele traz possibilidades e formas de ver que não tinhamos. Ele nos dá esperança.

E vocês podem pensar que estou exagerando, afinal de contas, é só uma série. Mas passei a semana toda pensando em escrever isso e, ontem, li na NY Mag um texto de uma mulher de 20 e poucos anos com uma ideia bem similar:

Eu quis escrever para ela (Jane Fonda) e dizer que a razão pela qual mulheres da minha idade gostam do seriado é porque nós precisamos ver amizade vencer adversidade. Nós precisamos ver mulheres mais velhas e vibrantes tomando posse dos seus corpos, se recusando ser deixadas de lado e invisibilizadas – e aprendendo uma com a outra ao longo do caminho.

Então quando duas mulheres mais velhas são abandonadas pelos maridos e tem que se reconstruir e isso não é feito com personagens trágicos, nós podemos olhar para nós mesmas e notar possibilidades que não são trágicas, mesmo que não sejam as que “deveriam” ser. Por isso comecei a obrigar todas as minhas amigas a verem o seriado: eu quero que elas repensem o futuro e o afeto, também. Eu quero que nossos futuros sejam mais amplos e mais felizes do que nos prometeram e que seja assim exatamente porque não nos encaixamos, porque não somos quem “deveríamos” ser.

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