Eu ganhei na loteria.

Não na loteria dessas da caixa econômica federal, na aposta esperançosa da quarta feira de quitar o carro, comprar casa própria e parar de se preocupar com o pinga pinga das contas que chegam todo mês por debaixo da minha porta.

Eu ganhei em outra loteria – mais kármica, metafórica, existencial.

Explico:

Eu sou roteirista e escritora, meu ofício é a escrita. Isso dá um ar de profissionalismo como se o ato de escrever não fosse um processo, e como se a pessoa que escreve não fizesse um esforço diário para continuar sendo uma pessoa que escreve. Há luta, jornada e trajetória em cada dia. Então, há algum tempo, resolvi me unir a grupos de escrita criativa, como forma de exercício, de ampliar horizontes, de manter a minha mente alerta. De não me isolar nas minhas próprias subjetividades. E foi um tempo feliz.

Eu morava em São Paulo, e aparentemente eu tinha encontrado a minha turma – gente que me divertia e desafiava, que me indicava livros, que lia em áudios de whatsapp, pessoas com as quais eu tinha e tenho debates maravilhosos sobre a vida e sobre o ofício de escrever. São eles meus queridos Escritores Na Estrada, com os quais eu estou fazendo esse projeto no Catarse.

Mas a vida me trouxe de volta para o Rio de Janeiro, depois de oito anos de vida essencialmente paulistana. E aqui estava eu, perto do mar. Meus antigos amigos cariocas, espalhados pelo mundo. Uns poucos sobraram, com vidas tão corridas quanto a minha própria – freelancer e mãe de uma adorável garotinha de três anos – então eu senti pela primeira vez aquela espécie de isolamento difícil de definir. O isolamento do “está tudo bem, por que vai tudo tão mal?”

Bom, num último esforço de rompimento da bolha das minhas próprias aflições, lancei uma garrafa ao mar, montando um novo grupo de escrita criativa. Procurei um espaço no Rio de Janeiro (O Catete 92), agendei uma sala confortável com pufes, no chão, mandalas nas paredes e incenso no ar. O flyer com as datas foi postado e viajou pelo mundo do facebook, eu sem saber muito o que esperar.

Quando coloquei o nome “Livre” tinha pensado nas minhas últimas pesquisas sobre representação de minorias na dramaturgia audiovisual e na literatura. Mulheres, pretos, velhos, gays e trabalhadores praticamente não aparecem. A dramaturgia é feita por homens brancos, acadêmicos, de meia idade, sentados em seus apartamentos nos bairros nobres das grandes cidades. Coloquei “Livre” no nome do grupo por querer que os participantes pudessem enxergar essa limitação de representatividade e eventualmente questionarem essas limitações. Bom. essa foi minha aposta. Esse foi o meu bilhete premiado.

Surpreendentemente as vagas foram preenchidas em menos de vinte e quatro horas. E preenchidas por mulheres.

Que coisa curiosa.

Isso nunca tinha me acontecido antes.

Claro, já tinha participado de grupos de leitura e escrita exclusivos para mulheres, mas eles sempre deixaram claro que era um espaço exclusivo.

Já esse grupo apenas “aconteceu” como um grupo exclusivo de mulheres. O Grupo Livre de Criação Literária.

Enquanto a data do nosso primeiro encontro não chegava, refleti longamente a respeito. Talvez o meu feminismo militante em redes sociais tenha afastado os possíveis participantes do sexo masculino. Talvez o meu feminismo militante em redes sociais tenha atraído apenas outras feministas militantes. Talvez.

Mas o que percebi durante o encontro foi diferente. Elas foram chegando muito timidamente. As apresentações revelavam contenção. “Meu blog é anônimo” disse uma. Outra bateu na tecla de “escrever apenas para si mesma”. Mais de uma classificou os próprios textos como “apenas um desabafo”.

Então os textos foram sendo apresentados. Alguns impressos, vez por outra em telas de celulares e laptops, lidos atentamente e em voz alta revelaram a verdade – eram mulheres muito talentosas. Com estilo, profundidade, falando de temas relevantes. Então porque tanto cuidado e reticência para colocar esse material na roda?

Então eu me lembrei. Não muito tempo atrás eu já estive lá. Eu já estive nesse lugar, de sentir o forte impulso da escrita, de estar embebida na minha própria escrita, estudando muito e lutando com todas as forças para continuar escrevendo mas ainda duvidando que eu era uma escritora. Eu estava lutando para pertencer, e claro, o mundo me contava que não existia lugar para mim como escritora se eu não estivesse vinculada a uma tradição de literatura feminina, ou feita por mulheres e que se eu não estivesse naquele lugar não existiria espaço para mim.

Eu sei, eu senti, eu intuí, que estávamos conectadas por esse mesmo sentimento. E a partir daí foi muito fácil entender o porquê de apenas mulheres terem se inscrito no grupo. Existe uma demanda reprimida. Existe uma produção reprimida. De mulheres de talento e que infelizmente não vão ver seus contos, crônicas, romances, artigos,  ensaios e poesias publicados. Elas não se vêem como escritoras pois, adivinhem?, existem poucos pares com quem dialogar, poucas publicações e editoras que não vão enquadrá-las e vastas bancadas de livraririas, sites, blogs e artigos de jornais gastando espaço e caracteres refletindo sobre autores e alguns boxes, notinhas e prateleiras falando de uma autora eventual que aparece aqui ou ali.

E não sou eu que estou dizendo. A pesquisadora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB) gastou umas boas dácadas da sua vida mapeando quem é o autor brasileiro. E ele é branco, mora no Rio e em São Paulo e é (surpresa!) homem.

Uma vez conversando com um amigo, autor publicado e incensado pelo hype. Falávamos sobre como nos descobrimos autores. Ele disse que decidiu ser escritor com doze anos e a partir dali, sem uma linha escrita, já se sentia autor dos livros que um dia iria escrever. Então contei para ele que não me lembrava de quando tinha começado a escrever ficção, talvez por aí, com dez ou doze anos. E que demorei uns bons quinze anos para me declarar autora. Precisei de uma força validadora externa, enquanto ele precisava apenas de uma forte convicção a respeito de si mesmo.

Mas como diria Nina Simone, “Não entendo um artista que não reflete o seu tempo” e o tempo está mudando. As coisas estão mudando. Iniciativas independentes como editoras que publicam exclusivamente mulheres, autoras se unindo para publicações coletivas, grupos, encontros, projetos mostram que o caminho para dramaturgia deve ser plural e diverso ou não irá alcançar outros públicos e outras subjetividades.

E cada vez que encontro essas garotas e essas mulheres, e que elas me informam casualmente que estão escrevendo, que são autoras, que são escritoras e que têm um novo projeto, ou que estão pensando em quem sabe talvez, arriscar uma publicação eu ganho na loteria de novo e de novo. São elas que estão quebrando o ciclo vicioso da falta de representatividade e inspirando outras mulheres e garotas. Gritando ali do seu cantinho: isso é possível. Vamos lá!

É muito muito melhor que mega sena.

O Grupo Livre de Criação Literária acontece aos sábados no Rio de Janeiro. Para maiores informações: grupodecriacaoliteraria@gmail.com

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