Que feministas são perseguidas por machistas, ameaçadas, xingadas, todo mundo sabe.  Que se criou uma idéia de que feministas são “mal amadas”, odeiam homens, justamente para afastar mais mulheres do feminismo, também.  Mas esse texto não é sobre isso. É sobre o constante incômodo que feministas causam em outras feministas.

Antes de qualquer coisa, quero deixar bem claro que sou super a favor que feministas recebam críticas sobre suas atitudes, não podemos de forma alguma passar pano para atitudes preconceituosas e equivocadas e sabemos muito bem que há várias feministas com posições equivocadas. Na verdade, pessoas equivocadas existem em todos os lugares, não é exclusividade do feminismo. Eu mesma critico, aponto quando necessário, da mesma forma que estou aberta para quando recebo críticas construtivas. Ninguém nasce sabendo, é um processo longo de desconstrução.

Porém, ultimamente uma coisa tem me chamado a atenção. Volta e meia vejo feministas serem atacadas por serem amadas ou conhecidas. Não é incomum ver algumas se referindo às outras como “famosinhas”. E dizem que essas feministas famosinhas são seguidas por uma massa de gente acrítica que diz amém a tudo o que elas dizem.  Outro dia vi uma pessoa criticando o fato de algumas serem chamadas de diva. Isso me soa muito problemático por vários sentidos. Primeiro, qual o problema de alguma feminista ter ficado conhecida? Nosso objetivo não é espalhar cada vez mais as idéias ou só falar para convertidas? Segundo, qual o problema no fato dessas feministas receberem amor? Terceiro, qual o poder que essas feministas tem para controlar a reação das pessoas sobre elas? Quarto, quanta arrogância julgar que as pessoas que as seguem não pensam. E, por fim, há um modo certo de demonstrar afeto? Devemos ser comedidas como a sociedade diz que devemos ser ou seguir o “padrão masculino”? Existe critérios para definir quem é mais feminista? Há um modo certo e único de demonstrar amor?

Quando eu vejo feministas que eu admiro muito, minha reação é querer abraçar, agradecer por elas terem sido tão importantes e aberto caminhos para muitas de nós. É extremamente importante poder nos reconhecer nas outras.  Não podemos alimentar a competição, a rivalidade entre mulheres no feminismo. Uma vez participei de uma mesa com uma feminista mais velha que deu a entender que a geração dela é que havia conquistado mudanças e não as mais jovens. Essa frase é tão problemática. Primeiro que gerações antes da dela promoveram mudanças até pra que ela pudesse estar lá. E julgar que as mais jovens não lutam, militam com novas ferramentas e formas,  é de uma arrogância tremenda.

Como mulheres, sabemos quais são os destinos que essa sociedade machista cria para nós. Então, se mulheres conseguem respeito e visibilidade por afrontar justamente esses valores, é porque elas são foda mesmo e eu serei sempre grata a elas. E, logo, as pessoas que as seguem não serão acríticas, ao contrário, se identificam com a luta.

Recentemente participei de um evento no nordeste e uma das moças que foi me ver chorou no momento em que conversávamos porque eu disse que ela era bonita. Ela me disse: “eu sempre me achei feia porque sou negra e fui muito maltratada. Depois de um tempo, as pessoas até diziam que eu era bonita, mas eu não acreditava. Mas agora que você me diz, não tem como eu não acreditar”. Eu, como negra, também passei pelo mesmo processo dessa moça e a gente se identifica. Talvez para quem está no padrão de beleza instituído, isso seja babação de ovo, “feminismo acrítico”, mas só quem sente, sabe.

São tantos os problemas que devemos enfrentar e não me parece nada inteligente ficarmos com esse tipo de atitude. Num mundo que odeia mulheres, sobretudo mulheres negras, feministas se reconhecerem nas outras é um ato revolucionário. Num mundo que destila ódio incessantemente às feministas, receber amor das outras é resistência. Deixem as feministas serem amadas.

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