Recebemos um e-mail que seria bom se todo mundo lesse.

Sempre falo muito sobre se amar e se aceitar e ser feliz e foda-se o mundo, mas acho muito importante ler relatos de quem ainda está na batalha. É importante para se enxergar e refletir. O texto é bem longo, mas vale a pena. O nome foi preservado a pedido da autora.

 

Sempre fui gorda, mas engordei muito mais no final da adolescência (passei dos 100kg) e, como sou baixinha, eu parecia ainda mais gorda do que era. Além disso, meu cabelo era bem crespo, enquanto o do meu irmão era liso. Minha mãe lamentava. Dizia que menino não precisava de “cabelo bom” e que era muito pior pra mim, menina, ter o “cabelo ruim”. Aliás, meus pais viviam me comparando com as primas magrinhas, loirinhas e arrumadinhas e diziam que eu ia acabar solteirona se não me cuidasse. Elas de salto, eu de tênis. Elas de maquiagem, eu com sobrancelhas de taturana. Até os 15 anos eu ainda nem tinha dado o primeiro beijo.

“-Nenhum rapaz gosta de moça feia e desleixada.” – minha mãe dizia.

Meu pai dizia que tinha pena de mim, pois eu ficaria para titia. Até porque, “homem não gosta de mulher feia”.

O meu irmão mais velho dizia que se eu continuasse engordando, iria explodir. E não ia servir nem para ser estuprada.

Talvez por isso eu, apesar de sempre ter gostado das ideias feministas, nunca quis me aprofundar. Existe o estigma de que feminista é feia, gorda e solitária. Eu já era feia, gorda e solitária. Provavelmente, seria uma “solteirona” no futuro. Por tudo isso, me afastei do feminismo. Não precisava de mais um rótulo.

Tentei não me ofender com os insultos e apelidos. Tentei rir do que me fazia sofrer. Quando um apelido doía muito, eu ria. Me chamavam de elefanta e eu ria. Me chamavam de Mônica (do Mauricio de Sousa) e eu ria.

Era a palhaça da turma. Sempre tive muitos “amigos” na escola. Diziam que eu sabia brincar, que não era uma chata politicamente correta. Que aceitava bem as piadas e as brincadeiras. Eu sorria. Por dentro, já estava inundada pelas lágrimas que nunca chorei.

Por vergonha do meu corpo, cortei a possibilidade de sexo da minha vida. Sofri por 10 anos. DEZ ANOS. Dos 16, quando tive a primeira oportunidade de transar com um carinha de quem estava a fim, mas decidi não transar por vergonha de ser gorda, até os quase 27 anos. DEZ ANOS me escondendo. DEZ! Quando os caras insistiam muito, eu já achava que estavam querendo me zoar, que era alguma aposta, que os amigos iriam rir de mim, que ele ia filmar tudo e postar em site pornô com vídeos bizarros das gordas. Eu sempre tinha uma desculpa para os caras. Às vezes era uma avó doente. Às vezes era uma dor de cabeça porque tinha bebido demais (detalhe: eu nunca bebi nada na vida, nem nunca usei drogas, porque achava que poderia me entregar e espalhar meus segredos se ficasse bêbada ou drogada demais.)

Não ia à praia. Não ia ao clube. Morava numa cidade fria, o que era a minha sorte. E, até hoje, não sei nadar.

Quando saí da faculdade e fui chamada num concurso público, continuava sem querer namorar ninguém e dizia que queria aproveitar a vida, ficar com todos. Sabem o que é engraçado? Ninguém nunca percebeu que eu era uma farsa. Nunca. Na faculdade, meu apelido era “gorda vagaba”. Pois é. E vários colegas diziam que já tinham me comido. Os malditos adoravam se gabar “a gorda é fácil’. E eu nunca desmentia. Mas também não me gabava. Eu não falava nada. Desconversava. Não queria contar vantagem. Queria apenas me esconder. Acho que foi por isso que a fama se espalhou.

“Antes gorda vagaba, do que gorda solitária e virgem” – eu pensava.

Saí da faculdade e continuei a mesma tonta. Eu beijava de vez em quando em baladas e nos carnavais, mas não namorava ninguém e não fazia sexo porque continuava com vergonha de mostrar o corpo gordo, flácido, com estrias e peitos caídos por causa do efeito sanfona de engordar-emagrecer-engordar mais-emagrecer-engordar mais um pouco. Infinitamente. Sempre voltava aos 100kg.

Só tive um único namorado. Era um evangélico, que sonhava em casar com uma virgem, apesar de ele mesmo não ser virgem. Eu só queria levá-lo para casa dos meus pais, naqueles insuportáveis eventos familiares. Só para não chegar lá sozinha. Só pra mostrar pra eles que a gorda não ia ficar pra titia. Eu detestava o cara, mas ele era filho de fazendeiro e isso fez com que meus parentes malas o aprovassem. Para ele, eu contei parte da verdade. Falei que era virgem, mas não expliquei o porquê. Mas, por ironia do destino, ele terminou o namoro comigo e ainda me chamou de gorda nojenta mentirosa, porque ficou sabendo, por meio de amigos em comum, que meu apelido na facul era “gorda vagaba” e que eu dava para geral.

E eu,no desespero de me aproximar dos 30 virgem, cheguei ao absurdo de contratar um garoto de programa. Mas não dei. Não tirei a roupa. Sim, fiquei com vergonha do garoto de programa! Falei pra ele que estava carente e só queria companhia pra jantar, mas paguei o combinado. E não, não contei que era virgem. Menti para o garoto de programa!

Quem é que mente para garoto de programa????

Pois eu fiz ainda pior do que isso: menti para a ginecologista!

Sim, eu sou tão doente, que menti para a ginecologista! Adiei muito a primeira visita e, meses antes de ir, rompi o hímen com um vibrador. Não tinha certeza se o hímen havia rompido, porque não senti dor e resolvi descobrir isso no dia do exame Papanicolau. Eu disse que não era virgem, ela acreditou e, como fez o exame (dolorido) normalmente, deduzi que havia mesmo rompido o hímen.

Pronto, eu não era mais virgem fisicamente. Mas isso era muito deprimente. A única saída para mim era encarar o problema de frente com urgência. Mas, em vez de conversar com uma amiga ou ir a um psiquiatra ou a um psicólogo, eu fui direto a uma nutricionista e comecei uma sofrida reeducação alimentar. Perdi apenas 5kg em 3 meses, porque não seguia direito a rígida dieta que ela me passou. Aí, aproveitei que ia ter férias e fiquei 25 dias num SPA. Perdi quase 10kg lá, por causa do excesso de exercícios físicos e a quantidade infinitamente pequena de calorias ingeridas. Saí de lá disposta a parar na primeira pizzaria ou sorveteria, o que eu encontrasse primeiro, mas não fui. Fui “firme”. Joguei todos os doces da minha cozinha fora e passei a frequentar academia todos os dias, inclusive aos sábados. De manhã, antes de ir ao trabalho e à noite, ao voltar.

Depois de quase um ano e meio de muito sofrimento e privações, inclusive 2 desmaios por pressão baixa na academia, eu havia perdido 50kg. Gastei rios de dinheiro em tratamentos estéticos para celulite e estrias (alguns muito dolorosos, como a carboxiterapia) Alisei meu cabelo crespo, fiz luzes até quase ficar loira, fiz bronzeamento artificial.Aí, como tinha férias de novo, raspei a minha poupança e paguei, à vista, por uma dupla-cirurgia plástica (lipoescultura e prótese de silicone nos seios.) Escolhi um bom médico e paguei bem caro pelos procedimentos. Contratei uma enfermeira pra ficar comigo, porque não queria dividir aquela dor com nenhum parente ou amigo. Achei que seria mais suportável. Passei minhas férias inteiras me recuperando das cirurgias e morrendo de dor. Um mês com dor. Era como se um caminhão tivesse me atropelado.

Era muita solidão.

Ah, também fiz depilação definitiva, porque tinha ouvido falar que homens não gostam de mulheres peludas. Só pensava em ficar menos feia. E o pior é que sofria porque o relógio estava contra mim. Quanto mais velha eu ficava, menos atraente eu me tornava segundo todas as revistas femininas. E quanto mais velha, menos homens iam me querer. “Homem gosta de novinha”

Gastei rios de dinheiro com a depilação definitiva também. Além disso, dói muito.

Tudo dói.

Tudo é caro.

Ah, pensam que sou rica? Não sou. Como servidora pública, tenho dinheiro certo todo mês, mas nunca saí do Brasil. Só viajei de avião 2 vezes em toda a minha vida. Não conheço nenhuma das praias do nordeste. Não tenho casa própria (moro sozinha, de aluguel) e nem mesmo um carro popular eu consegui comprar ainda, porque gastei o que tinha e o que não tinha com todos esses tratamentos estéticos e cirurgias. Pago as prestações até hoje das plásticas. Aliás, mais da metade do meu salário (que é muito bom pra uma pessoa solteira e sem filhos como eu) é gasto com estética (prestações antigas e novas). Eu poderia estar passeando, viajando, tendo prazer na vida…

Vocês devem pensar que sou fútil. Eu não era assim. Eu era inteligente, uma criança curiosa, alegre, feliz… E me tornei isso? Por quê?

Mas eu escrevi tudo isso sabem pra quê? Pra pedir para que vocês avisem as meninas que têm vergonha do corpo e por isso não transam ou não vão à praia. Para pedir para vocês, que são maravilhosas e escrevem maravilhosamente bem, para alertarem as meninas por meio dos seus textos.

Faço isso, porque eu só quero que elas saibam que emagrecer 50 kg não adianta.

Que fazer plástica não adianta.
Que silicone não adianta.
Que lipo não adianta.
Que alisar o cabelo e pintar de loiro não adianta.
Que ser APROVADA pelo controle de qualidade de alguns homens não adianta.
Que gastar todo o seu dinheiro em tratamentos estéticos não adianta.
Que ter namorado dentro dos padrões pra mostrar para a família não adianta.
Que ficar menos feia não adianta.
Que fazer sexo não adianta.
Que a dor não passa quando eles param de te chamar de gorda na rua.
Que a dor não passa quando os seus parentes param de te chamar de futura solteirona.
Que a dor não passa quando todo mundo cala a boca.

Porque o eco das palavras que te feriram é eterno. Porque o trauma não pode ser apagado. Porque os sentimentos não podem ser controlados. Porque eu ainda ouço a voz da minha mãe dizendo: “Eu disse que você ia acabar solteirona”. Ainda ouço meu pai dizendo: “Você não vai conseguir arrumar homem. Homem não gosta de gorda”. Ainda ouço meu irmão, hoje maduro e gente boa, dizendo: “Gorda feia não serve nem pra ser estuprada”.

A dor não passa nunca.

Não cheguei virgem aos 30. E daí?

Nunca mais comi um chocolate, numa mais bebi refrigerante, nunca mais comi pizza. Mas ainda tenho estrias e celulite, apesar de todo os gastos com tratamentos (que nunca, nunca terminam!) Tenho as cicatrizes das cirurgias. Ainda não me pareço com as belas modelos das capas de revista. Nunca vou parecer! E ainda tenho a vergonha. Ainda apago as luzes.

Ainda.

Para sempre?

Para sempre.

A não ser que a gente se liberte. Não sei como. Estou tentando. Estou fazendo terapia pra tentar me compreender. Consegui contar a minha história real para a psicóloga. Estou lendo sobre feminismo.

E leio o Lugar de Mulher diariamente.

Obrigada por tudo, meninas. Vocês são maravilhosas!

Um beijo de uma leitora de 32 anos, mas que nunca superou os complexos que teve a partir dos 13.

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