A página no Facebook “Te Vi no Mackenzie”, que frequentemente posta mensagens anônimas de pessoas que circulam pela universidade, postou ontem o relato de um estudante que diz ter sofrido assédio dos “manja rola do fil”.

Ele compilou detalhes do abuso e que não ficaria quieto sobre o que tinha acontecido, cobrando providências e dizendo que se estava declarando “guerra contra esses manja rola do caralho!”

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O post virou um show de mulheres respondendo com mensagens que facilmente chegariam à uma mulher, que fizesse a mesma reclamação em qualquer mídia social próxima de você:

“Mas com que roupa você estava?”

“Você está em um bar, bebendo álcool? Estava pedindo né?”

“Você tem certeza que não provocou?”

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¯\_(ツ)_/¯

Há algum tempo, em uma conversa com um colega professor, onde discutíamos a publicidade que invertia estereótipos de gênero, como já aconteceu no Brasil com as Havaianas, onde muitas pessoas acharam a campanha cheia de “”””sacadas geniais”””” (pausa para o Einstein na sacada) e divertida, e que claro, nós feministas estaríamos reclamando de tudo, que tudo está errado, não pode fazer mais nada, cadê liberdade criativa etc etc etc.

De fato, a inversão de estereótipos é divertida, em um primeiro e raso olhar. Não é preciso ir longe para problematizar e perceber que o que entretem, vem para expor algumas situações ridículas que cada gênero enfrenta no dia-a-dia da sociedade. Mas é preciso repertório e contexto.

Contexto para entender que o tempo passa e as coisas mudam. Que o que assustadoramente para a nossa geração era aceitável em décadas passadas, não é mais tolerável nos dias de hoje e vão gerar cada vez mais textões do Facebook, processos, boletins de ocorrência e prisões. Que comportamentos opressores – especialmente aqueles que parece fazer parte do métier – estão sendo extremamente questionados o tempo todo e se antes ficávamos quietas sobre aquele assédio, que era quase parte do job description, morrendo de medo de perder o emprego ou do que os outros iríam falar, hoje é crime e é cada vez mais motivo para processos trabalhistas.

Repertório para compreender que 95% das mulheres já sofreram algum tipo de assédio (Think Olga, 2015). Que para a sociedade e para a publicidade, ser mulher significa ser objeto sexual e que só no Brasil, um mulher é estuprada a cada três horas. Que se uma mulher estiver andando à noite sozinha, ela prefere ver o diabo do que um homem.

Isso é medo institucionalizado. Medo que foi desenvolvido e alimentado desde a infância, quando ouvimos que roupa podemos ou não usar, que lugares podemos ou não frequentar ou que comportamentos podemos ter ou não.

A inversão de estereótipos é a forma mais didática para mostrar como ainda somos desiguais e como ainda falta respeito em sua mais pura forma: pelas pessoas.

Ao rapaz que relatou o assédio: Bem-vindo ao clube! De fato, foi um assédio, contudo, vale salientar que ainda estamos falando de machismo, ainda estamos falando de homens que assediam e abusam sexualmente, mesmo que outros homens. A inversão dos papéis é um alerta para esclarecer que o machismo e o abuso sexual pode atingir qualquer pessoa, independente do gênero.

Isso já passou da hora de acabar.

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