Se tem uma duplinha que não costuma ser mamão com açúcar é mãe e filha. Taí uma relação que pode ser tão complicada que Lacan apenas decidiu utilizar o termo devastação para tratar do assunto. Devastar significa, de acordo com o dicionário, “tornar deserto, despovoar; assolar; danificar, arruinar, destruir; causar grande mortandade”. E é essa a palavra escolhida para falar da relação das mães com suas queridas filhas. Sutil, não?

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Não estou dizendo que toda relação entre mãe e filha é devastadora, nem Lacan disse. Ele deixou claro que se tratava apenas de uma parte, que por acaso definiu como “a maioria”. E, embora Freud tivesse tantas dificuldades quando o assunto era falar sobre o que era propriamente da mulher, sem meter o pai no meio, ele foi capaz de ver que o buraco aí era mais embaixo.

O pai da psicanálise disse, inclusive, que a relação da mãe com o filho homem é a mais perfeita, a mais livre de ambivalência das relações humanas. Mas, ao observar a relação das moças com suas mães, reparou certa hostilidade e uma boa quantidade de reclamações. A mãe é acusada das mais variadas coisas, que na verdade tem uma única raíz: ter feito a filha incompleta. É isso aí. A mãe é culpada porque não fez a pobre menina como deveria. E o que está por trás dessa acusação, o que a filha espera da mãe, Lacan chamou de ‘subsistência’.

Bonita palavra, né? Se buscamos suas derivações, chegaremos aos termos ‘ser’ e ‘existência’. Trata-se, então, de uma demanda por algo que lhe dê existência, quanto ao seu ser de mulher, feita a alguém que, enquanto mulher, está na mesma canoa furada. A mãe não pode dar à filha uma resposta que lhe assegure tal existência porque ela mesma já esteve – ou está – na mesma situação. Mas isso não impede que a filha acredite que sua mãe possui saberes sobre a feminilidade que não divide com ela, sabe-se lá por qual motivo. E também não impede que a mãe fique enfiando “respostas” goela abaixo da menina. Respostas que ela criou para si própria e que talvez não sirvam para a filha, pois por mais parecidas que possam ser – e podem ser bem diferentes – não são a mesma pessoa. Longe de serem respostas satisfatórias, podem tomar uma forma de mandato superegóico bem insuportável.

Mas essa reivindicação bastaria para que seja devastadora a relação entre mãe e filha? Não. É necessário algo mais, que lhe dê força. É aí que entra a face devastadora do desejo materno. Desculpem-me as mães que possam não gostar, mas foi Lacan quem disse – e terei que apoiá-lo -, que a posição da criança diante do desejo da mãe sempre produz estragos. Não é algo que possa ser indiferente, pois a própria vida do bebê depende do desejo da mãe – ou de quem quer que ocupe essa função. Que ele se alimente, que se relacione com o mundo externo, depende completamente de um outro. Esse outro não só é responsável por mantê-lo vivo, mas é quem lhe dá sentido… quem diz que o bebê sente fome, sente sono ou dor, quando ele chora, introduzindo-o no mundo das palavras.

Pode parecer ótimo então que o desejo da mãe se apresente, né, ou o que seria do pobre bebê desamparado… Sim. Tem que haver desejo materno. Mas não é sem consequências. Não é sem consequências e traz questões. Quem sou eu no desejo dessa mãe que pode fazer comigo o que bem entender? Porque o desejo da mãe pode ser bem caprichoso… Quem sou eu no desejo dessa mãe de quem dependo totalmente? Essa pergunta não é sem consequências, e é preciso que o filho ou filha não seja tudo que ela deseje. Apazigua que ela queira algo mais além daquele bebê, que seu desejo alterne, de vez em quando, para algo além dele. Aí a criaturinha pode se perguntar: O que ela quer quando não me quer? Ela se ausenta porque está interessada em algo mais que não a criança, e é a partir de então que esta se torna capaz de, também, desejar algo mais que aquela mãe.

Ainda que o desejo materno tenha esse efeito tanto para o menino quanto para a menina, fica ainda o impasse do simbólico para a filha mulher. A mulher não pisa com os dois pés no mundo dos semblantes, e um dos pés fica num lugar sem palavras, impossível de simbolizar. O problema aparece porque não é fácil se posicionar nesse lugar sem palavras, ninguém aguenta e é até meio enlouquecedor, daí a demanda pela tal da subsistência, por algo que amarre o outro pé do lado simbólico e assegure uma existência. E como não há resposta pra essa demanda e nenhum semblante encaixa perfeitamente, a sina da menina é seguir numa busca sem limites que, por vezes, envolve das mais estapafúrdias acusações aos mais intensos acessos de ódio.

Mas é claro que não é tudo só pedras – também tem flores. A palavra devastação é a tradução do francês ravage, palavra originalmente usada por Lacan. Faire des ravages carrega dois sentidos: fazer sofrer e fazer amar. É a dupla face do amor, a devastação e o deslumbramento, o estrago e a felicidade extrema. Uma mulher tem sempre algo de extraviada, e quando se junta extravio de mãe com extravio de filha… cada uma sabe das dores e delícias.

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