Você não pode captar a realidade, me disse Vilma Arêas, uma das minhas escritoras brasileiras favoritas. Existe essa máxima válida para todas as expressões de arte, não só a literatura.

Nós nunca reproduzimos a exatidão das coisas porque nós vivenciamos o mundo cada um a sua maneira, com sua história, contexto e ideais. A arte é a expressão externa da nossa experiência individual. Mesmo quando uma escritora dá voz a um personagem homem, ela está ali emulando o que ela conhece que é um homem – o que ela acredita sobre aquela realidade. Mas isso não se aplica ao que ela acredita ser uma mulher também? Afinal, nenhuma mulher é igual a outra. Fosse assim, nós não teríamos comportamentos tão diferentes no mundo inteiro. E a antropologia seria inútil. Logo, qualquer um pode se transpor e dar voz a qualquer ser humano – seja ele homem ou mulher. Um gato, um pássaro, um alienígena ou um liquidificador.

Quando li Carrie, a Estranha, do Stephen King, pela primeira vez, ri muito. Porque em dado trecho do início do livro ele descreve rapidamente a cólica menstrual de Carrie como um fenômeno que acontece imediatamente quando o sangue da menstruação começa a descer. E toda mulher sabe que a cólica não começa exatamente no momento que o primeiro pingo de sangue cai. Isso torna Carrie um livro menos fantástico ou menos verossímil? Claro que não. E o King continua sendo um excelente escritor. Muitas pessoas também tem lido Karl Knausgard, um escritor norueguês que escreve sobre a própria vida – em uma série de nome infame, Minha Luta – e uma das coisas que a crítica mais clama sobre seu texto são as conclusões sobre a paternidade e a vida doméstica. Mas tudo o que Knausgard nos conta sobre isso já foi dito décadas antes nos romances e Virginia Woolf e Simone de Beauvoir. Envelhecer, cuidar da casa, criar filhos e todas as mazelas sobre isso que Knausgard conclui já foram ditas. Por muitas mulheres. Isso faz dos livros dele piores? Claro que não.

Esconderam as mulheres – você tinha dúvidas?

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Ilustração da Magra de Ruim

No ocidente, o homem está correndo de vento e pompa pelo mundo desde sempre, enquanto a mulher só começou a se livrar dos grilhões da vida doméstica – e muito mal – há pouco menos de cem anos. É natural que as primeiras manifestações delas na literatura sejam reflexões sobre essa vida que levavam – levam? – relacionadas ao universo ao qual elas foram sempre trancafiadas à força. E se hoje existe o que chamamos de chick lit é uma clara nuance histórica de onde pôde se colocar as mulheres na literatura nos últimos anos. Além disso, as leitoras também estão em formação, e no mundo consumista, capitalista e desigual em que vivemos, qualquer coisa se torna um produto. Até livros. Isso influencia a formação de novas leitoras e leitores sim. E outra: na lógica capitalista, quem dita as regras é sempre o mais forte – nos últimos anos, as grandes editoras e seu monopólio do mercado.

“[…]minha hipótese é que a mulher foi confinada no espaço doméstico e isso fez com que ela não vivesse intensamente a cidade. Isso vai se refletir na criação literária. Você atravessa livros e livros de mulheres e nada. A cidade não tem concretude, densidade. E não é algo do Ocidente. Eu falo da japonesa Murasaki Shikibu, do século XI, escreveu um livro de mil e tantas páginas e não tem nada sobre a cidade japonesa. Ela era de Kyoto, capital do império Heian. Safo não fala de Mitilene, que era a cidade mais importante daquela época (século VII a.C.). […]O homem é o rei do espaço público, de onde durante muito tempo as mulheres foram afastadas. No Brasil colonial, as mulheres eram trancafiadas dentro de casa. Gilberto Freyre fala que a casa e a rua eram inimigas. Elas não podiam ver as visitas que chegavam. Quando elas começam a falar e pensar em espaço público, os homens chamam logo atenção para o perigo, não para o prazer. A conquista desse espaço pela mulher é recente.”

Diz Antônio Risério, antropólogo em entrevista ao G1, sobre seu novo livro “Mulher, casa e cidade”

Literatura feminina existe, sim

Mas isso não quer dizer que ela seja o único lugar onde as mulheres vão entrar. Um livro escrito por uma mulher e/ou com protagonista mulher pode estar ou não nesse balaio. E isso é incrível – desculpa, homens. Isso mostra que estamos vivendo um momento único e histórico na literatura brasileira.

A literatura feminina não existe porque o ser humano separa questões individuais por gênero, mas porque o “normal” sempre foi escritores e protagonistas homens. Porque só eles podiam publicar. Às vezes só eles eram alfabetizados, inclusive.

“Ora, porque a maioria dos protagonistas da literatura universal são sempre homens, de forma que o normal da literatura é o protagonista homem, e toda protagonista mulher precisa ser justificada, estar ali para provar alguma coisa ou demonstrar qualquer questão muito exclusivamente feminina. ela não pode ser mulher simplesmente porque nasceu assim, cazzo, e o livro não precisa ser sobre questões femininas, como se todo livro com um protagonista homem fosse sobre questões masculinas.

(e que seriam “questões femininas”, afinal?)”

Escritora de literatura policial, Olivia Maia, falando verdades em seu blog pessoal.

O que a gente não precisa mais é colocar todas as obras escritas por mulheres no saco da literatura feminina. Não precisamos mais ser tão toscos e simplistas. E também não precisamos dizer que literatura feminina é algo errado, porque é tudo parte de um processo histórico. O errado é permanecer reproduzindo o modelo velho e ultrapassado.

Muito além da “literatura feminina”

“Como você pode ser artista e não ser um reflexo do seu tempo?” nos pergunta Nina Simone no seu documentário What hapened, miss Simone? (imperdível, e disponível no Netflix). Estamos vivendo uma primavera editorial independente no Brasil, só os leitores que ainda não descobriram. Um esforço coletivo está acontecendo nos últimos anos, permitindo que as mulheres não dependam do aval ou da aprovação masculina para sair publicando. Nós estamos validando o nosso próprio trabalho por nós mesmas, e tudo o que precisamos é que as pessoas usem o Google para nos encontrar.

Nem precisa ir longe, é só dar uma circulada pelo Facebook. Tem As lendas de Dandara da Jarid Arraes sendo lançado daqui uns dias, a imperdível newsletter semanal da Aline Valek com seus livros de ficção científica, os ebooks da Lady Sybylla, os melhores desafios literários do mundo no blog da poeta Ana Rusche, os livros da melhor roteirista de todos os tempos, Renata Côrrea. Dá para começar devagarzinho também, com quem você já conhece: a Clara aqui no Lugar de Mulher, e a Polly daqui também, com livros que me fizeram cair para trás de tanto rir. Tem também os projeto dos Escritores na Estrada, que saiu pelo Brasil levando literatura independente de qualidade. Até eu lancei livro na Amazon esse ano, se chama Na Cama com Nietzsche. Se eu fosse você, eu ficava de olho no projeto “KD Mulheres” também, onde você pode apoiar as escritoras e consumir mais literatura de qualidade.

Deixo vocês com os versos da Tarsila Mercer de Souza. Boa semana.

inédito

todos os clichês

amontoados no porão.

as portas, os amores,

os lamentos, as músicas

da malhação, os conselhos

de boteco. todos:

os clichês em fila,

à espera de bater

seu ponto, refazer seu

ato: eu sou!

(dizem, quando entram)

aquilo que ensaia

para perfeitamente

me tornar o que fui.

batemos palmas,

na fila, ante tal salto

triplo carpado reverso.

somos o próximo

em cena. mas algo passa

a quem temos

um corpo de carne:

(tambores)

tropeçamos.

de quatro.

logo de entrada.

e da humilhação

de não ser Um

só nos resta fazer

qualquer tipo de História.

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