É notória a competição entre as mulheres incentivadas pelo patriarcado. É recalque pra cá, inimigas pra lá, aquela vadia, aquela, sempre ela, nunca eu, porque eu sou melhor. Sempre. Isso é algo que já estou até acostumada e, não que não me incomode, consigo lidar melhor no meu dia a dia do que a outra competição onde me inseriram sem eu nem saber e que me recuso a participar: a competição entre mães.

Eu já achava muito bizarro quando a minha própria mãe me comparava tanto com outras pessoas. Fosse nos estudos, fosse porque eu era gorda e as outras meninas magras, fosse porque as outras eram delicadas e eu uma ogra, fosse o que fosse, eu sempre me senti dentro de uma daquelas feiras onde as pessoas disputam a maior abóbora, a vaca mais malhada, a torta mais doce. Bom, eu nunca fui uma torta muito doce ou uma vaca muito malhada.

Eu via a minha personalidade diferente como uma desvantagem. Era como se não fosse certo, como se eu sempre tivesse que ser melhor do que as outras. Talvez por isso tentei durante muitos anos ser famosa ou me sobressair, me tornar conhecida de uma forma ou de outra, mas isso não vem ao caso agora. Só posso dizer que me sentir inserida em uma competição invisível me trouxe muitos complexos na vida, dos quais tento me desvencilhar até hoje.

Quando me tornei mãe, jurei para mim mesma que não faria isso com a minha filha e cumpro com a minha promessa. Não fico comparando ela com ninguém, não fico falando para ela que fulano é melhor. Sei como isso ainda me dói, não quero isso para ela. Mas infelizmente isso não depende só de mim.

Quando ela tinha 2 anos fomos a um restaurante com uma pessoa com filhas mais velhas. Lá minha filha encontrou coisas para mexer e fazer barulho (e qual criança não curte um brinquedinho novo?). Algumas pessoas olhavam mas eu não estava nem aí. Não era uma baderna que chegasse a destruir o local. Era só uma criança brincando com alguns copinhos plásticos. Então essa pessoa doce e educada que estava conosco na mesa disse:

“Nossa, minhas filhas nunca fizeram isso”

A vontade que eu senti foi de dizer “ninguém te perguntou nada”, mas achei melhor responder apenas “que legal. A minha faz!”

Passou. Depois, dia desses, eu estava conversando com uma colega e falando que graças a deus ela está saindo das fraldas, só falta a noturna. A fulana me olhou com uma cara de nojo e disse “nossa, o meu filho já parou faz tempo de usar fraldas!”. Virei os olhos. Perguntei alguma coisa?

Comentando com uma parente sobre a escola, disse que estava orgulhosa de ralar para pagar uma escola que já tinha robótica para crianças da Educação Infantil. A pessoa teve a coragem de dizer que não era grande coisa, que a filha dela teve 20 matérias extras na escola e nem por isso ela se gabava. Bom, problema dela, eu não me gabo, me orgulho. Isso me deixou profundamente irritada.

Parando para pensar um pouco mais, eu fico imaginando se as mães que competem entre si têm noção do que estão fazendo. Um filho não é um prêmio, não é a maior abóbora, não está em uma competição. Uma criança é uma pessoa em desenvolvimento, tendo cada uma seu próprio tempo, sem atropelar nada. A individualidade de cada um é muito importante e deve ser respeitada, se estendendo aos adultos.

Chega de comparar, chega de competir entre si. Está na hora de criar laços entre as pessoas.

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