“Ela manja mesmo”.

Eu queria dizer que simplesmente detesto essa frase, mas ainda não encontrei uma maneira de me livrar dela.

Isso me acompanha depois de palestras, no final de toda primeira aula que dou na graduação, depois que alguém para pra ler algo que eu postei. Claro, você está se perguntando: MAS POR QUE RAIOS ESSA MINA NÃO CURTE RECONHECIMENTO? E eu te explico: caro (a), quem não ama reconhecimento? Claro que eu gosto. O que me incomoda profundamente é que a primeira coisa que vão pensar sobre mim é que eu não manjo de nada.

Ou seja, quando eu começo uma fala, o sino toca, ou eu abro o word, já parto desse mesmo princípio: não estou apenas escrevendo, lecionando; para os outros, eu tenho que me provar, o tempo todo, sem parar.
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Duvido que um homem tenha que escutar: “Nossa, quando você entrou na sala de aula, e eu vi que você é homem, eu achei que você não manjava nada e abri o celular”. Note: os sete alunos que comentaram isso (verídico, sim) não comentaram sobre a minha roupa, o meu cabelo, o jeito que eu falo, eles apontaram o pré-conceito de eu “não saber” somente ao meu gênero.

E daí vem a sombra da tal competência. Eu não escrevo, estudo, pesquiso para mostrar nada para ninguém, eu faço isso por paixão, faço isso porque quero, e porque posso (quanta gente por aí adoraria, mas não pode, sei dos meus privilégios como pessoa branca de classe média). Mas muita gente vai partir desse princípio. E muita gente acha isso normal. E o pior: não importa quantos doutorados eu tenha estudando jogos digitais, ainda vou ter que escutar que “ela lançou livro, mas não entende de games”. O livro é o resultado do trabalho de mestrado, e você pode achar um trabalho ridículo, tudo bem, você tem esse direito. Mas isso não significa que “eu não entendo”, significa que eu tenho posições contrárias às suas. Contudo, leia antes, por favor.

Aos poucos, eu acredito que tenho me colocado mais com relação a questões de gênero, e claro, me sinto colocando um grande alvo na minha cabeça. Mas por que eu me sinto assim? Porque toda vez que me assumo feminista, ou conto algo a respeito da minha experiência, vêm os extremismos. É assim que me sinto, o que você acha disso não vai mudar a minha vivência. É difícil sentir empatia pelo diferente, por aquilo que a gente não viveu. Eu não tenho a menor ideia de como são as experiências um homem homossexual, ou mulher negra, etc. Quando algum deles vem me contar, o que eu aprendi é: a luta dos outros é desconhecida pra mim, mas isso não a invalida. Dessa forma, respire fundo e tente imaginar: uma mulher sobre no palco para falar de games, quadrinhos, séries nerds, e por aí vai, e ninguém imagina que a fala será um desastre.

Quando isso acontecer, podemos começar a realmente conversar sobre o que, no fundo, queremos comentar: games, quadrinhos, séries nerds, e por aí vai. Quando a gente parar de se assustar que uma mulher pode “saber das coisas”, a gente não vai precisar viver o estereótipo da mina que sabe. Seremos todos profissionais, cada qual com o seu estudo.

Agora, tente fazer um exercício mental: numa mesa no evento legal que você gosta, tem um cara dando uma palestra sobre assunto x. Ele não é pesquisador, mas é um comunicólogo conhecido. Quem parte do princípio que ele “não manja”? Ele não precisa ter mestrado e doutorado. Eu sim. Não faço pesquisa pela credencial (e quem já fez sabe muito bem que não rola acabar um mestrado só pensando assim), mesmo porque a credencial não me traz nada a priori. O que me entristece é que não importa o quanto eu estude, sempre terá muita gente que nunca vai imaginar que “eu não manjo”, antes mesmo de saber meu nome.  E toda e qualquer posição contrária não serve como discussão, mas como um tipo perverso de prova de que eu não sei nada mesmo.

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