Quando eu era criança notei, pela primeira vez, que existiam dois mundos. Em todas as famílias que eu conheci, mesmo as mais diferentonas, as mulheres eram as “responsáveis” por “cuidar” da casa.

Como toda criança, óbvio, eu queria ficar longe disso, no lado mais animado (coincidentemente o dos homens). E assim a coisa continuou por muitos anos, comigo me sentindo “mulher o suficiente para ser homem”, sem nem me dar conta que “ficar na sala e não na cozinha” não me tornava a alma livre e disruptiva que eu pensava, mas mais um fardo para as outras mulheres que continuavam cozinhando e limpando, cozinhando e limpando.

Então, semana passada quando publicaram uma pesquisa da Universidade de Michigan dizendo que “ter um marido cria uma carga extra de sete horas de trabalho doméstico por semana para as mulheres”, eu voltei a pensar nisso de ainda sermos vistas como serviçais.

Na verdade a maioria das pessoas que vive segundo essa “divisão” de tarefas leria a frase acima e acharia um desrespeito, porque elas não acreditam estar impodo nada. Essas pessoas, em sua maioria, acredita que as mulheres são criaturas que nasceram para cuidar. Ou seja, é tudo responsabilidade nossa.

Agora imagina o peso disso.

Quando as pessoas falam em “fragilidade feminina” acho que esquecem desse pequeno detalhe: na média as mulheres não tem espaço para ser frágeis, desde criança temos todas as responsabilidades do mundo nos nossos ombros. E não temos um respiro, uma folguinha que seja.

Pra quem acha que estou exagerando vale ler sobre abandono de mulheres doentes, de filhos (especialmente os doentes), sobre culpabilização da vítima, sobre assédio infantil, enfim. Tem coisa pra caramba deixando claro que: não temos espaço para fragilidade.

E os relacionamentos, o amor, que deveriam ser uma espécie de aconchego na alma, acabam tantas vezes baseados em mulheres sobrecarregadas com jornadas extras cozinhando, cuidando e limpando, cozinhando, cuidando e limpando. E quando existe alguma divisão de tarefas, ainda dizemos: “ele me ajuda” com os filhos, com a louça, etc. Como se nada disso fosse responsabilidade dos homens, porque eles são os caras que ficam na sala, não na cozinha. Eles tem compromissos maiores que tudo isso e, quando são homens sustentados por suas mulheres e seguem sem fazer nada, são apenas melhores que nós por default.

Porque achamos que é apenas normal carregar todo o peso do mundo. Mas não deveríamos.

Não é coincidência que tantas de nós (e me incluo aqui) tenhamos crescido olhando para as tarefas domésticas como algo menor, uma tarefa ingrata que não queríamos por nada. Nós também queríamos habitar a sala e não a cozinha (ao menos não como obrigação). Nós também queríamos ter problemas maiores que a própria vida que vivemos. Dessa mesma ideia errada surgem as hordas de machistas infantilizados que ainda “ofendem” feministas com frases como: “vai lavar a louça”, “vai pro tanque”, tentando nos lembrar do nosso status inferior.

Porque, claro, sonhamos poder ser frágeis como a maioria dos homens, que podem contar com o amparo das mulheres que ficam ao seu lado “faça chuva ou faça sol”. Mas isso, pra maioria de nós, é uma ideia, em um livro, que foi adaptado para o cinema e estrelado pela Julia Roberts.

Para a maioria de nós os relacionamentos acabam apenas somando nas responsabilidades que carregamos.  Porque o problema não está na tarefa doméstica. Ser responsável por sua própria sujeira (lavando louças e roupas) e por sua própria sobrevivência (fazendo comida) é apenas o mínimo. O problema está no fato de que esses caras esperam regalias, e tudo que não for isso é errado (segundo eles). É a famosa cultura do Reizinho que já falei aqui.

Nunca é demais lembrar que um homem adulto não está ajudando se está fazendo o mínimo para sua própria dignidade, sobrevivência, salubridade, como faria se não fosse casado ou morasse sozinho. Nem está ajudando ao se responsabilizar pelas vidas que, porventura, pode vir a gerar. Ele não é uma criança, ele consegue. Por Zeus, até as crianças conseguem lavar uma louça, cara.

E ainda que a vida prática (e o mundo todo) nos digam diferente: nós não devemos isso a eles. Casamento não deveria ser um contrato de serviços de uma mulher para um homem.

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