Desde a semana passada o Brasil inteiro está acompanhando um caso de estupro coletivo, ocorrido no RJ, contra uma menor de idade. O caso teve tanta repercussão porque os próprios criminosos gravaram e divulgaram em redes sociais um vídeo que deixava explícito o ódio presente naquele crime.

E algumas de nós chegaram a pensar que, diante daquela brutalidade, nem a pior pessoa seria capaz de contestar que ocorreu um crime. Mas, mesmo assim, foram necessários aproximadamente dois dias para substituir a comoção nacional pela culpabilização da vítima.

As mulheres nunca saem impunes de sofrer violência porque, parece, somos incapazes de olhar para elas e pensar que realmente podem ter sofrido a violência que dizem ter sofrido. Uma mulher, certamente, está sempre mentindo, querendo destruir algum homem, inventando desculpas. Porque a violência misógina nunca é sobre as mulheres mas está sempre diretamente relacionada com algo que elas fizeram ou com quem foram.

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E é essa negação que faz do estupro um crime cotidiano, uma coisa que acontece no bar, na favela, na escola, na casa do dono da emissora de TV.

É porque somos incapazes de assumir o estupro pelo que é, porque inventamos desculpas, porque queremos acreditar que um homem para praticar esse tipo de violência tem que ser maluco e porque, pensamos, nenhuma mulher, por mais vulnerável que seja, é digna de receber a alcunha de vítima, somos todas imperfeitas demais para isto.

Admito que já estava esperando pela culpabilização da jovem carioca. E nem só porque eu já vi esse filme muitas vezes mas porque desde que abri meu Twitter, na quarta-feira passada, comecei a receber três coisas: links para o vídeo, mensagens de mulheres e meninas perguntando que medidas podiamos tomar e prints de perfis de Facebook e Twitter tentando descreditar a vítima. Recebi prints de aproximadamente seis perfis diferentes, ou seja, mesmo que um fosse o da vítima, pelo menos cinco não eram.

O que quer dizer que pelo menos mais cinco mulheres/meninas merecem ser estupradas, segundo estas pessoas.

O argumento que vinha junto de todos esses perfis era de que: ela é uma vadia, ela quis. Como se o fato de essas mulheres (que sequer eram a vítima) terem tirado fotos em poses sensuais ou feito comentários sobre sua sexualidade alterasse o que aquele vídeo trazia: uma menina desacordada sendo tocada sexualmente por homens. E como se o fato de uma mulher fazer o que fosse na vida alterasse o crime previsto no Art. 217 do Código Penal (esse link explica melhor e aqui é possível ouvir a atual responsável pelo caso, delegada Cristina Onorato, usando essa mesma argumentação):

Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência.

Mas o mais revoltante disto tudo talvez seja que quem primeiro reverberou a ideia de que esta menina não era “perfeita o suficiente” para ser considerada uma vítima foi um delegado. Uma pessoa que deveria agir de maneira profissional, pelo menos não expondo dados de uma investigação em andamento, conhecendo a lei e, no mínimo, sabendo tratar e preservar uma vítima de um crime hediondo. Mas, segundo a própria vítima, não foi bem assim:

O próprio delegado me culpou. Quando eu fui à delegacia eu não me senti à vontade em nenhum momento. Eu acho que é por isso que muitas mulheres não fazem denúncias. Tentaram me incriminar, como se eu tivesse culpa por ser estuprada.

Ocorre que, sabendo disso, no lugar de ficarmos constrangidos e revoltados, apenas acreditamos neste homem. Quem esta menina acredita ser para se dizer vítima, afinal de contas? E muito rapidamente levantamos nossos dedos e colocamos eles na cara da mulher, porque é nesta posição que nos sentimos confortáveis, julgando mulheres que sofreram violência. E, fazendo isso, dissemos: nós sabíamos que não era bem assim, ela certamente “gostou”, como disse o delegado.

estuproImagem daqui

Mas não se deixe enganar, a questão está longe de ser com esta garota porque este não é um caso isolado, infelizmente.

A questão é que quando olhamos para mulheres vítimas de violência sexual, sejam elas quem forem, agimos como se elas precisassem, antes de tudo, provar sua inocência. E elas nunca são inocentes o suficiente.  Nenhuma mulher é boa o suficiente para ser vítima. Nem as mães, nem as avós, nem as netas. Nem as donas de casa, nem as estudantes, nem as profissionais. Nenhuma delas é ilibada o suficiente para ser melhor que um homem, mesmo um homem criminoso.

Se não acredita só na minha palavra, clica nos links desse post (mas cuidado, são histórias brutais).

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