Alguns meses atrás não consegui continuar assistindo e fechei uma série que até então gostava porque simplesmente não aguento mais, estou realmente cansada de estupro como recurso narrativo para “complexificar”, “dar profundidade” para personagens femininas.

O problema é que esse desconforto não foi embora depois de desistir do seriado, fiquei me perguntando quando isso aconteceu, quando estupro virou um clichê narrativo? Então resolvi descobrir se eu era a única sentindo isso e, oh Google, obrigada por me mostrar que somos várias.

Acho que temos muitos motivos para olhar para a frequência da narrativa atual do estupro com desconfiança e certo rancor, e o primeiro que me chamou atenção foi a ideia (super frequente) de que a profundidade de uma mulher só pode derivar de violência sexual. Pode parecer incrível, mas mesmo mulheres que sofreram violência sexual tem muitas muitas outras camadas de complexidade, existem per se e não derivam somente de uma violência que sofreram.

A Kate Conway concorda comigo:

Ao submeter constantemente essas heroinas a violência como forma de as complexificar, os autores estão colocando toda a agência de desenvolvimento dessas personagens em quem as atacou (…)

Eu fui estuprada em 2010. Mas se as pessoas pensarem que essa é a coisa mais interessante sobre mim, vou ficar bem triste. É parte do sumário, mas não é o único capítulo.”

Além disso, existe uma crescente fetichização nas narrativas de estupro. Quero dizer, se tu fala sempre da mesma coisa tem que adicionar cada vez mais detalhes extremos para manter a atenção. Mais ou menos o que o Zizek diz no Deserto do Real quando fala sobre nossa obsessão por buscar “o real como ‘efeito’ último”. Ou seja, nós não nos contentamos mais com uma cena de morte, precisamos de uma cena de morte ultra realista, mais sangue falso, close de violência e, quando nem isso basta mais, precisamos de snuff movies, porque qualquer representação ficcional de morte já foi normalizada.

Note como minha repetição da palavra estupro dessensibiliza depois de um tempo. Isso acontece porque ver algo com muita frequência tende a normalizar a coisa e, eventualmente, transformar em algo sem sentido

Tanto existe uma normalização que o estupro de uma personagem mulher é usado muitas vezes apenas para complexificar o drama de um personagem homem. Se isso não é o suficiente para ti, muitos desses personagens são o próprio estuprador pelo qual devemos nos compadecer porque ele tem problemas.

pam

Vai cagar, né.

Enfim, para finalizar quero falar da importância da forma, aka, da escolha pelo modelo de relato e o que ele representa. E, para isso, trago comigo dois estudos. O primeiro é de 2012 e chama Positive Female Role-Models Eliminate Negative Effects of Sexually Violent Media (Modelos femininos positivos eliminam os efeitos negativos de uma midia sexualmente violenta). Já falei dele aqui e, basicamente, nele o Christopher J. Ferguson estudou os efeitos sociais de personagens femininos, tanto nas mulheres quanto nos homens.

O resultado é que os personagens femininos afetam a reação emocional e o tratamento dado às mulheres da vida real. E afetam de um jeito bem mais sutil que imaginávamos. Por exemplo, personagens fortes, mesmo quando em situação de violência costumam causar menos efeitos negativos nos espectadores.

Por outro lado, homens que assistem programas com personagens mulheres submissas tem atitude mais negativa em relação às mulheres, enquanto as mulheres se sentem mais ansiosas com personagens assim, especialmente quando elas aparecem em situações de risco de violência sexual.

No segundo, de 2015, o Edward R. Murrow concluiu que Law & Order: SVU trouxe um impacto positivo nos estudados porque não mostra apenas a violência sexual e como ela impactou nas mulheres, mas um processo de reconhecimento e punição de um crime.

Ou, como disse a escritora Seanan McGuire:

Estupro na ficção pode ser uma coisa importante e poderosa. Pode ser usado para afirmar coisas importantes (…) é importante mostrar situações desconfortáveis através da ficção. Eu não tou dizendo que ninguém deveria escrever sobre estupro, nunca.

Mas estupro, na ficção, também pode ser uma coisa problemática e depreciativa, usada para colocar heroínas insolentes no seu lugar (…). Eu não entendo – eu não vou entender, eu me recuso a entender – porque estupro tem que estar na mesa em toda história com uma protagonista feminina, ou mesmo com um elenco de apoio feminino forte. Por que presumem que eu estou sendo “pouco realista” quando digo que nenhuma das minhas personagens mulheres vai ser estuprada? Por que isso “tira tensão da história”? Tem bastante tensão sem que eu tenha que escrever sobre um tópico que perturba tanto à mim quanto à muitas das minhas leitoras, obrigada.

Obrigada.

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