TW: estupro

Nos últimos dias, dois casos que ganharam notoriedade, um no Brasil e um nos Estados Unidos, deixam bem claro o quanto ainda consideramos estupro um crime menor.

O primeiro são as 13 acusações de estupro de então jovens mulheres contra o comediante Bill Cosby. O segundo, as acusações de 8 estupros relacionados com a Faculdade de Medicina da USP.

Se, por um lado, os casos da USP e as acusações contra o comediante são muito diferentes, por outro elas tem uma sistemática bastante similar. Em ambos os casos as vítimas foram ignoradas em nome do status agregado à uma figura pública ou uma instituição (não coincidentemente, ambas representadas por figuras masculinas).

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“Ninguém acreditaria em mim… Todos amavam ele” (daqui)

Sobre isso a Britney Cooper falou no Salon:

Uma das razões pelas quais os sistemas do patriarcado, racismo e heteronormatividade são tão difíceis de desmantelar é precisamente porque estão subjugadas ao nosso investimento emocional.

E é nas figuras e estruturas mais consolidadas que elas se tornam mais aparentes. Quando, por exemplo, no caso da USP, onde mesmo após vencer um processo contra seu agressor, a aluna não conseguiu que ele fosse sequer expulso da faculdade ou da moradia estudantil.

Ainda é difícil, para nós, reconhecer no tipo de status que projetamos em futuros (homens) médicos comportamentos criminosos e nocivos. Mas ignorar esses processos não faz com que eles percam sua força, pelo contrário, faz com que eles se tornem maiores e mais poderosos. Então, diferente do que foi dito por aí, minimizar a cultura do estupro e os relatos das vítimas só naturaliza e torna essa violência mais forte.

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“a gente precisa abafar: primeiro, para proteger a vítima e, segundo, porque isso vai destruir a festa” (daqui)

Disse o médico que presidia a comissão que apura as denúncias de estupro, ao se afastar: “A faculdade se comportou mal. Houve demora da congregação, ficaram na defensiva (diante das denúncias). Há uma crise de conduta, de valores”

Por isso, para a Britney, ainda que uma punição eficiente seja o mínimo, essas situações vão ainda além da punição na justiça, pois passam por repensar onde colocamos nossos investimentos emocionais e afetivos. Ou seja, se em algum momento nos tornarmos capazes de reconhecer nas vítimas (que são seres humanos comuns) a mesma dignidade que projetamos nessas figuras e instituições, a possibilidade de existirem outras em situações semelhantes diminui. O exato oposto do que ocorreu tanto na USP quanto com as vítimas Bill Cosby.

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