No próximo dia 23, lançarei o meu primeiro livro: “As Lendas de Dandara”.

Escrevê-lo foi um processo complexo, não apenas por se tratar de uma obra independente que tive que revisar e editar por conta própria, mas porque no percurso da escrita me deparei com algumas questões íntimas que foram refletidas na minha personagem.

Quando tive a ideia de escrever um livro sobre Dandara dos Palmares, minha intenção era contribuir com a disseminação de sua história. Eu queria que as pessoas conhecessem a guerreira e, por isso, tivessem o interesse de pesquisar sobre o quilombo de Palmares e a história da população negra no Brasil. Acima de tudo, desejava que uma heroína negra fosse celebrada e que fosse a protagonista de uma grande história literária, sem que em nenhum momento fosse reduzida ou encaixada em estereótipos e conceitos racistas ou machistas.

No meio do meu trabalho de desenvolver a personagem, me deparei com algumas questões que foram refletidas no meu modo de escrevê-la. O fato de que eu fui, quando criança, uma das pouquíssimas garotas negras de uma escola particular me fez perceber que eu era diferente dos demais. Muitas vezes, as pessoas não acreditavam que eu era filha da minha mãe, que é branca e loira, e em outros diversos casos fui “confundida” com a empregada da minha casa ou com a babá do meu irmão, também branco. Entre meus colegas, cheguei a “vencer” uma espécie de concurso de garota mais feia da sala.

Meu escape era a minha performance em sala de aula. O destaque das notas e os elogios dos professores e diretores eram minha forma de conquistar um espaço e receber alguma valorização. Com o tempo, aprendi que eu não deveria desejar o título de “garota mais bonita” ou “delicada”, mas sim os elogios que reconhecessem minhas capacidades intelectuais, meus talentos e minha personalidade acolhedora e divertida.

Muitas pessoas sentem que precisam “compensar” seus supostos defeitos. É uma espécie de estratégia de sobrevivência, uma forma de não ser totalmente excluído e esquecido, pois todas as pessoas necessitam de reconhecimento, apoio e encorajamento. Assim como eu, muitas mulheres e garotas negras sentem a necessidade de ter mais empenho e dedicação em suas notas e estudos, ou sentem-se obrigadas a se destacarem nas atividades que praticam para conseguirem mais oportunidades.

A esse fenômeno dou o nome de “Síndrome do Não Boa o Bastante“. Quando você está em um grupo socialmente marginalizado, parece que nada que você faz é bom o bastante. Não basta conseguir passar de ano, você precisa tirar apenas nota 10. Não é suficiente jogar bola e vencer com seu time, você precisa virar a artilheira. E isso vale para muitas outras situações, porque se trata de uma sensação de exclusão muito forte, uma ferida na autoestima que faz com que você cobre sempre demais de si mesma. “Se eu vou fazer isso, eu tenho que me dedicar mais do que todo mundo”, você pensa. Não porque você não tenha capacidade, mas sim porque os outros duvidam de suas habilidades, porque nunca esperam que uma pessoa “como você” receba algum destaque positivo. Se você deseja ser notada, parece que é preciso abanar os braços, gritar e fazer de tudo para que reparem em você por meio de suas notas altas e atitudes excepcionais.

Eu achava que tinha deixado isso tudo para trás há muitos anos, pois quando comecei a entender os mecanismos do racismo, do machismo e da gordofobia, o meu empoderamento pessoal ficou muito mais fácil. Eu já havia conseguido desligar a sensação de realização que eu sentia por avaliações alheias, mas vi todas essas questões voltarem à tona enquanto escrevia o meu livro.

De repente, eu refletia na minha personagem todas aquelas inseguranças sociais e pessoais pelas quais eu passei. A primeira versão do livro estava cheia de uma Dandara que eu tentava justificar e afirmar, como se aquela personagem nunca fosse boa o suficiente; eu pensava que as pessoas leriam e não enxergariam seu heroísmo, sua garra e sua força. Para mim, nada do que eu fazia Dandara realizar era o suficiente. Ela precisava de muito mais: precisava de adjetivos que se amontoavam e de posturas de superioridade que prejudicavam a humanidade da protagonista.

Embora o livro seja de fantasia, Dandara estava muito mais sobrenatural do que humana, porque eu tinha medo de humanizá-la, já que “humana” não era bom o suficiente. E foi muito difícil reconhecer que eu estava fazendo isso, não só porque eu tive que reescrever e mudar muita coisa, mas porque eu também precisei encarar, de frente, nos olhos, as cicatrizes que o preconceito havia deixado em mim. Quando eu finalmente parei e aceitei que eu estava prejudicando a minha personagem por causa da lógica de exclusão da nossa cultura, sua humanização se tornou fluída e muito mais tocante.

Escrever é uma ação complexa e cheia de aprofundamentos. Não é tão simples assim contar uma história em que os personagens são humanos, com os quais os leitores podem se identificar, se envolver e se emocionar. A Aline Valek, que ilustrou o meu livro e me ajudou em todo essa jornada, me disse, afinal, que para isso é preciso que você encontre sua voz e que ela seja verdadeira. Acima de tudo, é preciso que você deixe a sua verdadeira voz tomar forma e percorrer livros por meio das palavras que você escreve. Quando eu finalmente rejeitei a “Síndrome do Não Boa o Bastante”, a protagonista que eu criei conseguiu se mostrar em toda sua glória, coragem e humanidade.

E, afinal, a luta contra o racismo, contra o machismo e contra todas as outras formas de discriminação é a luta pelo reconhecimento de sua humanidade. Sim, é muito triste lutar por algo que é seu por direito – ou que deveria ser -, mas infelizmente ainda trilhamos rumo a uma sociedade mais justa e com mais equidade. Para um grupo de pessoas que foram desumanizadas e tratadas de forma pior do que bichos a vida inteira, para quem experimenta a marginalização ou para quem é considerado inferior por suas características físicas, gênero ou orientação sexual, ser humano é resistência.

Felizmente, com atenção e sensibilidade, consegui deixar que minha personagem fosse tudo o que ela precisava ser. Agora a protagonista do meu livro, Dandara dos Palmares, é muito mais do que uma guerreira forte e habilidosa; ela é também espelho e acolhimento. E se parece muito com nós.

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Para conhecer meu livro, visite o site.
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