Já fui uma mulher que reproduzia machismo e afastava as outras, aquelas mulheres tão cheias de frescura, tão mulherzinhas, tão fracas, que eu considerava inferiores a mim.

Já fui uma mulher gordofóbica que não conseguia imaginar como aquela gorda tinha coragem de sair de casa, que aquela gorda ia morrer sozinha, que quem ia querer aquela gorda.

Já fui uma mulher que apontava pra outra e chamava de piranha, eu mesma sendo piranhíssima, mas ó, eu não era como as outras, eu podia. Pff.

Já fui também uma mulher racista, que achava linda a cultura negra mas tirou onda do cabelo de “creiça” de uma outra mulher.

facepalmeterno

Eu já pensei, falei e fiz muita merda, sem ter a menor ideia do mal que estava fazendo.

É muito difícil nadar contra a corrente comportamental e midiática. Sorte de quem tem a chance de crescer hoje. Sorte da minha filha, das amigas dela, das meninas da escola que reivindicam seus direitos e pedem palestras feministas. Sorte das filhas das feministas.

Eu não tive essa chance. Muitas de vocês também não.

Apesar dos comentários de portal, eu tenho alguma fé na humanidade. Tenho mesmo. Vejo essa nova geração, vejo como amigas e conhecidas mudaram o discurso de alguns anos pra cá, vejo a mudança na minha vida. Ninguém nasce pronto. Ninguém nasce sabendo. Todo mundo faz, fala e pensa merda em algum momento da vida.

E depois que a gente muda e se dá conta dos absurdos, precisa cuidar muito pra não achar que pode subir no palanquinho moral e apontar o dedo pra quem ainda tem o discurso que você tinha. Já me peguei fazendo isso algumas vezes, que feio, muito feio.

É um exercício diário. A desconstrução nunca tem fim; o mundo está sempre tentando empurrar normas e regras. É mais confortável pra alguns comprar um pacote já pronto, é claro, mas de que serve um pacote pronto se não beneficia a todos e ainda pode te fazer mal?

Não existe uma fórmula certa pra viver. A gente vai acertando e errando, em todas as áreas, com todas as pessoas. O importante é saber ouvir, ter humildade pra admitir erros, desenvolver empatia com pessoas que estão além do que sentimos na pele, pra entender outras vivências distantes das nossas.

É sempre bom lembrar disso. Eis uma tecla que eu acredito que deve ser batida constantemente: ninguém nasce pronto, todo mundo erra e pode aprender se quiser e souber ouvir.

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