Quando eu era adolescente me dei conta de uma coisa: diferente de virtualmente todas as mulheres da minha família, eu não teria seios grandes.

Pode parecer bobeira – especialmente pra quem tem seios grandes – mas eu me dei conta disso exatamente porque não era. Não naquele momento. Aos 16 anos ser percebida como a única das tuas amigas que ainda é uma menina é uma coisa terrível. Eu jurava que nunca seria uma mulher, menos ainda sensual. E jurava isso porque era exatamente isso que eu vivia.

E, o pior, quando tentava tocar no assunto com as pessoas parecia que só eu me incomodava com o fato, no mundo inteiro. Por exemplo, logo que notei que meus peitos não ficariam maiores que estavam, tentei falar sobre isso com uma série de mulheres nas quais confiava. Não lembro de termos saído dos clichês sobre dores nas costas, dificuldade para correr (!), etc, pois “não é essa maravilha toda, acredite, eu também sofro”.

My-mom-had-bigger-titsMinha mãe tinha peitos maiores que eu. Herdei os peitos do meu pai, não sei o que rolou

Depois de algum tempo tentei falar disso com os caras com quem convivia e eles se apressavam em dizer que adoravam seios pequenos. Como se o tesão de um homem, qualquer homem, fosse capaz de aniquilar toda dúvida e necessidade de compreensão.

Mas a grande derrocada ainda estava por vir. Ao longo dos anos fui lendo progressivamente menos relatos de mulheres com seios pequenos e mais relatos de mulheres que optaram por colocar implantes. Nada contra implantes, tenho amigas que colocaram e são bem felizes, mas, sim, é meio assustador fazer parte de uma espécie em extinção.

E os relatos das mulheres que colocaram implantes deixavam claro que não se tratava de sexualidade, mas de amor próprio. Feito a Kaley Cuoco, que faz Big Bang Theory disse:

Eu não tinha peitos! E isso (a cirurgia) foi realmente a melhor coisa que já me aconteceu! Eu sempre me senti desproporcional. Meus implantes me fizeram sentir mais confiante sobre meu corpo. Eu não tava tentando ser uma estrela pornô ou parecer gostosa e sexy.

E, pra mim, o crescimento desses relatos acontece por dois motivos essenciais, que estão presentes nessa citação (dê um desconto para os preconceitos com estrelas pornô): sensualidade e feminilidade.

Quando negamos que queremos parecer sensuais na real estamos pedindo desculpas por estar inseridas nesse mundo maluco, que nos diz que temos que ser perfeitas mas não ligar pra isso. O que, no caso das feministas, é como se tivessemos super poderes, feito nascer com uma imagem corporal positiva por default. Só que ninguém (ninguém mesmo) nasce assim, os padrões de beleza foram feitos para ser inatingíveis e todas nós sabemos da luta constante que é necessária para lembrarmos que: não somos bibelôs de ninguém.

E quando falamos em feminilidade e achamos que deslocamos o foco para nós mesmas, estamos apenas escolhendo ignorar que isso é, na real, a mesma coisa. Por isso essa parte, pra mim, costuma ser ainda mais cruel. Porque ela também é uma questão de papel de gênero, esse negócio que quer nos dizer como devemos ser, nos portar e agir para suprir uma expectativa social criada em torno do que é ser mulher. Se não somos assim, socialmente, somos menos mulheres. Ou seja, existe a punição por destoar de um conceito que não fomos nós que definimos e que, no caso dos seios pequenos, é uma característica física, do corpo da pessoa!

seios pequenos

E se tu acha que eu estou exagerando, tem um estudo inglês de 2013 que concluiu que homens que curtem seios grandes tem maior tendência (siliga na construção) a ser machistas benevolentes, objetificadores e hostis em relação às mulheres. Segundo os responsáveis pelo estudo, isso ocorre porque “os seios são percebidos como indícios diferencial de gênero” e mais “apropriados para mulheres femininas” e submissas. A ideia é reforçada por outro estudo de 2013 onde a autora nos lembra que quanto maiores os seios, maior a objetificação na terminologia popular. Ou seja, mais as pessoas tendem a ver e se referir a eles como objetos: bazuca, por exemplo. Reforçando essa ideia, nesse texto do Jezebel, a autora nos diz que quando pushup bras são vistos como desonestidade é porque os seios femininos são vistos como commodities que aumentam o valor sexual da mulher. E daí espera-se, que além de enormes, eles apontem para o céu naturalmente, eternamente, sem gravidade aqui.

*ufa*

E é exatamente por isso que me recuso a te dizer clichés objetificadores feito “seios perfeitos são os que cabem na mão”. Dizer isso é tentar remediar uma parada escrota com outra igualmente escrota, feito aquele papo de que “mulheres de verdade tem curvas” (as outras são de mentira?). Também não vejo sentido real em te dizer o que vou dizer, que nesse primeiro estudo concluíram que quanto mais jovens mais os caras curtem seios grandes (ou seja, se tu for uma jovem bi ou hetero, isso passa e, com o tempo, os seios pequenos se tornam populares).

O negócio é que manter esse tipo de coisa como relevante é manter a ideia nos padrões e regras que vem de fora. E achar que esse mito inatingível de feminilidade é algo compulsório para ser feliz.

Pra mim meus seios pequenos começaram a ser legais não porque eram populares,  mas porque eu me dei conta que beleza é múltipla e pessoal. Ou seja, está na cabeça. A beleza que está fora da cabeça é imposta. E nada que é imposto pode ser lindo.

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