É sabido que existem vários feminismos, que o movimento é diverso e heterogêneo. Existem várias vertentes, perspectivas, modos de atuação. Feminismo não é dogma, se constrói todos os dias; é um movimento em aberto.

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Eu me sinto contemplada pelo feminismo interseccional, ou seja, de não existir primazia de uma opressão sobre outras já que todas são subordinadas a mesma estrutura. Como nos ensina Audre Lorde, sou mulher e negra, não posso me dar ao luxo de escolher contra qual opressão lutar.

Ser feminista interseccional significa perceber, por exemplo, que nem todos os homens podem ser tratados da mesma maneira. Homem negro sofre racismo e pode sim ser discriminado por uma mulher branca nesta questão. Da mesma forma que um homem negro pode ser machista com uma mulher branca. Mulheres não são sempre vítimas e podem sim oprimir quando estão em uma posição de privilégio.

Ter isso em mente significa que não existe machismo? Não, significa que todas as mulheres sofrem machismo, mas, dependendo de sua posição social, podem oprimir outros grupos. Essa perspectiva de que todas as mulheres sofrem igualmente é desumana, porque essa universalização da categoria mulheres foi feita tendo como base uma mulher branca, heterossexual e de classe média. O racismo cria uma hierarquia de gêneros e ao dizer que todas sofremos iguais, quando sabemos que não, perpetuamos essa representação que deixa de fora muitas mulheres e cria uma hierarquia de vidas; escolhe quais vidas devem ser representadas e conseqüentemente salvas.

Da mesma forma é preciso perceber que nem todos os homens sofrem de maneira igual. A realidade de um homem branco e de classe média não é a mesma da de um homem negro de periferia. Vivemos num Estado genocida que assassina homens negros, em que milhares são vítimas da violência policial. Essa visão simplista de que mulheres e homens sofrem de modo igual precisa ser superada. Falta um olhar interseccional.

O feminismo negro não se distancia tanto do homem negro como acontece em relação a uma feminista branca, porque tanto homens negros como mulheres negras sofrem racismo e dividem essa dor, o que não acontece no outro caso. Homens brancos, ricos e heterossexuais estão no topo do privilégio da pirâmide social e desfrutam de uma realidade muito diferente da dos homens que não estão nesse lugar. Isso de forma alguma significa que homens negros não possam oprimir e não devem ser responsabilizados por isso. Sim, devem e como feminista negra nunca serei omissa, mas isso significa perceber que não se pode colocar todos os homens nos mesmos pontos de partida.

Dizer “homens são inimigos e pronto” não nos ajuda. A mim interessa muito mais entender e problematizar como a masculinidade hegemônica é construída e está ligada diretamente a agressividade, violência e pensar modos de se combater isso do que ficar numa birra interminável ou atacar quem não pensa assim.

interseccional

Feminismo não é religião, lembram?

Sou combativa, faço piadas com homens, acho surreal quem acredita em misandria, mas tenho plena consciência de que as coisas são muito mais complexas.

Ano passado uma garota fez um denúncia num grupo feminista de facebook de forma irresponsável dando a entender que um rapaz negro gay era estuprador. Em questão de minutos, o perfil desse rapaz começou a receber xingamentos e até ameaças de morte. No fim não era nada disso, o rapaz foi acusado injustamente. Mas imaginem o mal que poderia ter acontecido. Se rapazes negros são espancados, amarrados em postes por roubar, imaginem ao serem acusados de estupro. Esse rapaz poderia ter morrido, o que não aconteceria se o rapaz fosse branco. Não perceber isso é corroborar com o discurso racista dessa sociedade. Ao defendermos o rapaz negro, nós, feministas negras, fomos acusadas de estarmos defendendo homem.

Percebem a desonestidade e o perigo dessa situação? Não estávamos defendendo homem, mas sim uma pessoa que estava sendo acusada injustamente e, que por essa acusação, poderia ter perdido sua vida.

Audre Lorde nos explica bem:

“Como mulheres, alguns de nossos problemas são comuns, outros não. Vocês, brancas, temem que seus filhos ao crescer se juntem ao patriarcado e testemunhem contra vocês. Nós, em contrapartida, tememos que tirem os nossos filhos de um carro e disparem contra eles a queima-roupa, no meio da rua, enquanto vocês dão as costas para as razões pelas quais eles estão morrendo”.

Não perceber essa diferença crucial e insistir numa visão não interseccional só faz com que se reforce o poder que tanto se diz combater. Feministas que atacam outras que possuem um olhar interseccional deveriam rever seus locais de privilégios e parar de depor contra o movimento que dizem fazer parte.

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