Hoje é aniversário da Amy Winehouse.
Sim, ela. A Amyzinha.

 Meu amor por ela foi imediato e avassalador. Amy juntava tudo que eu amava, a música, o look, as influências e deusas, aquela voz. Sei tudo, tenho tudo, procurei tudo. Ouvi tudo e é tão, tão triste que isso é só que teremos dela.

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Amy é uma das grandes cantoras da nossa geração. Teria sido muito mais, é claro, se não tivesse sido engolida por uma espiral de abandono, abusos e distúrbios alimentares.

Não, eu não estou inventando isso. Sempre fiquei estarrecida com o fato de que pouquíssimos prestavam atenção a esses sinais. Seu irmão falou sobre isso, sua mãe falou sobre isso no documentário (“Amy me disse: mãe, encontrei a dieta perfeita, é só comer o que quiser e vomitar tudo depois”), e, também no filme, os sinais de distúrbios alimentares são evidentes. Evidentes pra mim, talvez, por eu já ter passado por isso, mas cenas de comilança compulsiva seguidas de relatos de outrem falando sobre como ela “redecorou o banheiro” com vômito me parecem  informações bem pouco sutis para serem ignoradas.

Eu demorei, sabe, pra superar. Fiquei triste como se tivesse perdido uma amiga. Fiquei mais triste ainda porque quando estive em Londres para o lançamento de um livro meu (Cat Life, tradução do Vida de Gato) pensei, ponderei, até peguei o endereço mas desisti de passar por lá e deixar um exemplar pra ela, sei lá, dar um abracinho, trocar uma ideia, tomar umas, mas eu também estava toda cagada na época e talvez não tivesse sido um bom encontro. Eu não ia ter conseguido ser a amiga que ela precisava e possivelmente passaria por apenas mais uma mala invasiva. Mas ai, eu queria tanto.

Pior, devo confessar: eu tive um namorado e nós achávamos o “amor” doido dela e do Blake lindo. Posso até dizer que nos espelhávamos naquilo, cegos entre amor romântico cagado, sexo, drogas e mentiras. É, era bem parecido, no final. Não tão ruim, talvez, mas como é que eu podia achar bonito chamar o cara de “meu Blake”? Obrigada, tempo, por ter passado, obrigada, vida, por ter me poupado, porque eu, magra, doente e louca como estava, não estaria aqui para escrever essas linhas.

Muitas vezes pensei na solidão dela. No talento que não cabia na solidão, na solidão que não cabia no talento, no mundo asqueroso da cultura de celebridades que não só não se importa com o ser humano que é a celebridade como não tem o menor problema em macerá-lo até a morte.

Até a morte.

Amy não tinha estrutura pra fama. Pra holofotes. Ela queria compor e cantar. Era isso. Sempre a imagino como uma diva antiga, distante, em um estúdio em 1962 e incapaz de lidar com a violência e invasão dos paparazzis e a sede por fofoca desse mundo moderno muito louco que curte mesmo é a desgraça dos seus ídolos, fazer chacota deles, rir do desespero, da feiúra que a tristeza traz, dos flagras humilhantes. Que mundo bem ruim é esse nosso.

No laudo de sua morte está lá: intoxicação por álcool e complicações em decorrência de bulimia. Antes mesmo de sua morte, um ex dela (bem asqueroso, por sinal) já tinha falado a respeito da doença.

Kayleigh Hughes escreveu em um texto fantástico a respeito da bulimia de Amy no Pitchfork:

Há um conjunto tacitamente aceito de regras que nossa cultura segue quando se trata de mulheres que estão no centro das atenções. Eles são obrigadas a ser magras. Eles não têm uma dieta normal e isso é não só visto como ok, mas como inofensivo. Transtornos alimentares são tão normalizados em nossa cultura, especialmente na cultura da celebridade, que poucas pessoas sequer reconhecem que isso não é saudável e é potencialmente fatal. Os transtornos alimentares combinam com o que a sociedade espera de uma celebridade – amamos muito a magreza, mas sabemos que devemos desaprovar a maneira de chegar a ela – mais fácil  seu estilo de vida ou a sua vida boêmia do que prestar atenção no “pedágio” de ficar abaixo de um certo peso.

Seu corpo, depois da fama, mudou completamente. Muitos diziam que era por causa das drogas, mas minha gente, não. Quer dizer, não só; é claro que se entupir de tóxicos não ajuda ninguém, mas se o seu corpo está fragilizado por anos de vômito induzido e sequer consegue absorver os nutrientes do que você come, é claro que qualquer substância vai ter um efeito muito mais devastador e muito mais rápido.

A pessoa que sofre de bulimia esconde isso com maestria. Desde os anos 90 existem fóruns pro-ana e pro-mia, apelidos carinhosos dados pelas meninas que sofrem e defendem com unhas e dentes seus transtornos. É triste, é horrível e me causa uma dor imensa ver que a sociedade ainda ignora e, de certa forma, encoraja esses transtornos.

Hoje Amy faria 33 anos. A Amy maravilhosa, que tinha coragem de cantar e escrever tão à flor da pele que eu diria que ela nem pele tinha, apenas nervos expostos. A Amy, que era minha amiga e nem sabia. Que ainda é, em tantos momentos. Que conseguiu transformar sofrimento imenso em músicas maravilhosas.

Amy, uma das maiores cantoras da nossa geração, que morreu porque queria ser magra. 

Se você quiser assistir ao documentário, assista. Eu vi uma vez só e foi o suficiente pra me entristecer pelos próximos anos. Um pai asqueroso que só se importava com dinheiro e agora fica choramingando “minha filhinha”, mas na hora de sequestrar a garota desmaiada e botar em um avião pra fazer em um show que ela tinha pedido pra desmarcar não pensou nas consequências. Um marido aproveitador, abusivo, asqueroso, aproveitador de novo e meu deus, onde estavam os amigos dela? Triste demais.

Hoje eu não assisti o documentário de novo. Pra mim chega. Prefiro assistir a Amyzinha em seu auge, antes da loucura total, antes daquele Blake em quem eu adoraria dar uns sopapos.

(Amo essa música, mas ia querer trocar uma ideia sobre essa letra, rs)

(Essa eu também amo e me leva pra uma época desgraçada da vida, mas que música)

(Do me good é um b-site que eu amo amo amo)

Eu poderia ficar aqui caçando links e lembrando dela por mais muitas horas. Não tive tempo, mas logo mais, quando estrear o programa de rádio o Lugar de Mulher (sim, isso vai acontecer!) prometo, Amyzinha, um programa só pra você, com raridades, b-sides e muito amor mesmo, algo que te faltou tanto nessa sua vida tão curta.

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