Todos os dias homens me perguntam qual seu espaço no feminismo, como devem agir para ser mais feministas. A cada 300 tem uns 6 que querem, mesmo, saber. E é com vocês que eu quero falar, hoje, caras.

Vou citar um exemplo ficcional (suavizado) do que eu sou obrigada a ler aproximadamente mil vezes por dia:

Essas feminazi. kkkk. Não pode fazer piada de estupro. kkkk. Não pode cantada. Não pode nada. kkk.

O que esses sujeitos não entendem é que ser mulher parte do pressuposto que todas as coisas que eu faço no meu dia passam por um filtro que eles sequer notam ou desconfiam que exista: o filtro do medo real, iminente e constante.

O medo é o filtro que guia a maior parte dos caminhos que percorremos (figurativa e literalmente) na vida. Porque é pelo medo que escolhemos qual rua pegaremos e qual meio de transporte usaremos. Mas o medo não fica só fora de casa. O medo quer ditar meu comportamento como um todo e quer ditar até meu modo de vestir e falar.

E, não, nada disso é infundado ou exagerado. Esse medo surge da vivência feminina, não de casos isolados. Ou seja, ser ou conhecer vítimas de diversas formas de violência não é privilégio, é universal.

Essa vivência é o que nós chamamos de cultura de estupro. E, talvez, seja difícil para um homem que ri “kkkk” entender, mas nós chamamos ela assim porque não começou com a NET ou o 99 Táxis. Nem vai acabar aí. Essa violência e invasão de privacidade são cotidianas e sistemáticas.

Vocês, homens, muitas vezes foram associados com coragem, mas nunca sentiram esse medo e, menos ainda, sabem o que é conviver com ele costurando todas as opções da vida de vocês.

E, talvez por isso, alguns naturalizem tanto algumas formas dessa violência, porque não entendem que fazer isso é deixar espaço para que ela, como conjunto, se torne mais forte e mais constante. Porque não são só os casos extremos (como estupro) que costuram essa cultura. E, mesmo, para que estupros ocorram é preciso que a sociedade, como um todo, feche os olhos para essas violências pelo que são. E prefira ignorar que são muito mais frequentes e inseridas na roda de amigos que gostaríamos de achar.

Porque, não, estupro não é coisa de doido, sociopata. A grande maioria dos estupros relatados no Brasil foi praticada por alguém que conhecia e convivia com a vítima. E foi praticada porque, assim como os prestadores de serviço da NET e do 99 táxis, eles achavam que a mulher estava a sua disposição, independente da vontade dela, ou seja, era menos que humana. Agravando essa ideia terrível, conforme falamos aqui mais de um zilhão de vezes, a grande maioria da sociedade acha que toda e qualquer violência que uma mulher sofra é culpa dela.

Reconhecer o padrão social que causa isso e confronta-lo, é o que nós esperamos de vocês, caras. Porque vocês pertencem ao grupo que mais mata e pratica violência contra o nosso grupo. Então, o debate é bonito e importante, mas a vivência real de feminismo para os homens se dá nas escolhas cotidianas. E em tentar tornar esse medo, que costura tanto da nossa vida, cada dia mais fraco.

Mas, até lá, respeitar as mulheres como tuas colegas de humanidade e reconhecer o que elas trazem como vivência é essencial.

homens-feminismoPadawans, vocês conseguem

Só que fazer isso optando por não contar piadinhas sobre estupro ou respeitando as mulheres no metrô não vai te tornar mais popular, diferente do que falar publicamente sobre isso te tornaria. E essa é a real revolução, porque romper com uma cultura cristalizada de opressão e violência não é algo criado para nos deixar mais populares, pelo contrário. Mas é algo que, invariavelmente, nos torna melhores como pessoas, sociedade e cultura.

E se vocês aceitarem o lado menos festivo e glamouroso que é repensar seus privilégios e combater o que eles representam no mundo: é nóis, caras.

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