Eu estou cansada. Na real estou tão cansada que não aguento mais. E sei que vocês também não, então vamos lá.

Ontem estava lendo sobre a marca de cuecas norueguesa que fez uma campanha dirigida para homens “normais” e aumentou em 30% suas vendas.

homens-normais

O diretor de marketing da marca disse:

Queremos superar crenças limitantes que alguns corpos são melhores, mais bonitos ou mais normais do que os outros

E, bom, nós sabemos que marketing é marketing, mas o fato de esses homens serem um público importante e dessa campanha ter aumentado as vendas me deixou feliz porque me fez pensar que o questionamento de padrões de beleza é algo cada dia mais relevante e presente.

Só que daí eu parei pra olhar pro outro lado. E lembrei como esse processo, pros caras, é uma coisa bem mais simples que pra nós.

Por exemplo, meses atrás resolvi fazer uma maratona de dias só assistindo comédias românticas. Queria ver se conseguia aprender, notar algo interessante ali. E notei que, entre outras coisas, os pares das comédias românticas normalmente são formados por um homens “normais” e mulheres dentro dos padrões de beleza.

ligeiramente-grávidosPor exemplo, em Ligeiramente Grávidos

ressaca-de-amorOu em Ressaca de Amor

harry-e-sallyOu no clássico Harry e Sally – Feitos um Para o Outro

Depois de notar isso, comecei a pensar em todas as minhas amigas que tinham dito que não gostavam de caras tão dentro dos padrões. Claro que não! Nós somos ensinadas a achar que um homem “muito bonito” é problema, bom mesmo é um “cara normal”. E isso ao mesmo tempo que nos cobramos um padrão de beleza só atingido por bonecas.

barbiebodyEssa renderização fotorealista compara o corpo da Barbie com o corpo médio da norte americana

Poderia continuar, lembrar que mesmo com as mudanças que estamos vivendo, as revistas ainda nos ensinam semanalmente a emagrecer, ficar jovem para sempre e parecer que estamos fazendo isso de maneira casual. Ou que, às vezes, parece que mulheres gordas só existem na TV brasileira para fazer humor ou pra ser ridicularizadas, como a Polly falou maravilhosamente aqui. A ficção parece que tá sempre tentando nos dizer que se não formos assim não vamos existir.

marge-e-homerE que até os desenhos animados são assim

E, além disso, ainda temos os sites de notícias de celebridades. Numa visita randômica, eis a página inicial do maior site do tipo no país:

Captura de tela de 2015-10-16 19:52:01

Por isso não posso criticar Anitta quando ela diz (de piada ou a sério) que:

Meu processo criativo é um pouco diferente, porque tenho que fazer show, ficar magra, então não tenho tanto tempo pra compor.

Eu tenho certeza que essa preocupação em se manter magra e dentro de padrões é uma preocupação real e constante na vida dela. Porque parece que existe um nível de celebridade que só se alcança, sendo mulher, quando estamos dentro dos padrões de beleza e somos jovens.

Então pode parecer exagero, mas quando dizemos que, pras mulheres, a situação não é tão simples, estamos querendo dizer que a pressão é tanta, mas tanta, que precisamos falar de padrões sempre que possível não porque queremos impor nada pra ninguém, mas porque isso é torturante (fisica e psicologicamente). E porque todas precisamos sair dessa prisão, senão não passamos um dia sequer sem pensar nisso. E porque não aguentamos mais a ideia de que só existimos aos olhos do mundo se estivermos nos padrões.

E quando eu digo que estou cansada, quero dizer exatamente isso: eu não aguento mais pensar nisso. E eu não aguento mais ver minhas amigas se torturando por isso. Nem ver as coisas que eu gosto permeadas por isso, porque eu não quero ir pra academia pra ser magra e gostosa, eu quero fazer esportes porque tenho fibromialgia e porque, acima de tudo, me fazem feliz. Eu não quero me esforçar, num esforço vão, em me enquadrar nesses padrões: eu nunca vou ser magra o suficiente, eu nunca vou ser alta o suficiente, eu nunca vou ter peitos grandes o suficiente, eu já não sou mais jovem o suficiente.

E mesmo que tudo isso não fosse exatamente assim, que eu estivesse mais próxima dos padrões, eu não aguento a ideia de que cresci ouvindo e ainda dizemos para as meninas que só temos valor se estivermos nesses padrões. Que uma cantora pop só consegue fama se estiver nesses padrões, que uma atriz só é boa pra novela se estiver nesses padrões. Enfim, que as mulheres só podem ser compreendidas passando por esse filtro de padrão de beleza, que só servimos para embelezar o ambiente.

Isso é tosco, é desumano e é cansativo pra caramba. E eu acho que chega.

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